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Todo homem vê melhor olhando por baixo

Galinsky et al. (2006): poder elevado reduz capacidade de ler emoção alheia. Owen e Davidson descreveram síndrome de hubris em 100 anos de líderes. A vantagem cognitiva da humildade.

Você já percebeu que quanto mais poder alguém acumula, mais difícil parece enxergar o que está acontecendo ao redor de verdade? Existe pesquisa mostrando que isso não é impressão. É dado.

Existe uma forma de olhar que enxerga mais, mesmo partindo de uma posição aparentemente mais baixa. É o olhar de quem tem convicção de quem é, sem precisar erguer o próprio queixo para se sentir maior do que quem está ao lado. O oposto disso, o olhar de cima, de quem se acha melhor só por estar numa posição de poder, parece dar mais visão à primeira vista, mas a ciência mostra o contrário, quem olha de cima, na maioria das vezes, enxerga menos, não mais.

Em 2006, os pesquisadores Adam Galinsky, Joe Magee, Ena Inesi e Deborah Gruenfeld publicaram um experimento simples e revelador na revista Psychological Science. Pediram que participantes, antes divididos em grupo de alto poder e grupo de baixo poder através de uma tarefa de memória, desenhassem a letra E na própria testa, usando o dedo. Quem estava no grupo de alto poder desenhava a letra voltada para si mesmo, legível para quem olhasse o próprio rosto no espelho, mas invertida e ilegível para qualquer pessoa em pé na frente. Quem estava no grupo de baixo poder desenhava a letra voltada para fora, legível para quem estivesse olhando de frente, mesmo que isso significasse desenhá-la ao contrário na própria testa. Em experimentos seguintes, participantes com sensação de poder elevada também erraram mais ao tentar adivinhar a emoção no rosto alheio, e ignoraram com mais frequência que outras pessoas não tinham acesso à mesma informação que eles próprios possuíam. Poder, segundo os próprios autores, reduziu de forma consistente a capacidade de compreender como o outro vê, pensa e sente. Vale registrar, com honestidade, que réplicas posteriores feitas por outros laboratórios encontraram resultado misto, algumas confirmando o efeito original, uma encontrando até o oposto em contexto específico. A relação entre poder e perda de perspectiva não é uma lei fixa e automática, mas o padrão geral, replicado por múltiplos grupos de pesquisa independentes ao longo de quase duas décadas, aponta na mesma direção, poder tende a estreitar, não a ampliar, o campo de visão de quem o exerce.

Em 2009, o político britânico David Owen, ex-chanceler do Reino Unido, e o psiquiatra Jonathan Davidson, da Universidade Duke, publicaram na revista científica Brain um estudo batizado de síndrome de hubris, descrevendo um padrão de mudança de personalidade que os dois observaram em presidentes americanos e primeiros-ministros britânicos ao longo de cem anos de poder. A síndrome aparece depois de anos de poder acumulado, sucesso repetido e pouca restrição externa sobre as próprias decisões, e se manifesta como excesso de autoconfiança, desprezo crescente pelo conselho alheio, e um afastamento gradual da realidade concreta que cercava aquela pessoa antes de tanto sucesso acumulado. Owen e Davidson descreveram a condição como adquirida, não inata, o que significa que ninguém nasce com ela, ela se desenvolve como consequência direta de tempo demais olhando o mundo de uma posição elevada demais, sem ninguém por perto disposto a contrariar.

Junte as duas peças e aparece uma explicação concreta para algo que parece, à primeira vista, contraintuitivo. Um líder que mantém a própria humildade, que continua fisicamente e psicologicamente próximo de quem executa o trabalho, sem se sentir superior por ocupar uma posição mais alta na hierarquia, preserva justamente a capacidade cognitiva que o poder tende a corroer em quem cede à soberba. Enxerga emoção alheia com mais precisão, avalia informação que não é só a própria, e não desenvolve, ao longo dos anos, o afastamento gradual da realidade que a síndrome de hubris descreve em detalhe clínico. Essa não é uma vantagem moral abstrata. É uma vantagem cognitiva concreta, mensurável em laboratório, e ela pertence a quem tem segurança suficiente da própria convicção para nunca precisar validar essa convicção olhando os outros de cima para baixo.