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A palavra mentor tem três mil anos

Fénelon (1699): Les Aventures de Télémaque transformou nome próprio em conceito universal. Bill Campbell: 12W-41L como técnico, tornou-se conselheiro de Jobs, Page, Brin, Bezos. O que separa mentor real de autoridade emprestada.

Existe uma palavra que carrego com muito cuidado porque entendi tarde o que ela realmente significa. Mentor não é só um substantivo, é uma história de três mil anos que vai mudar o que você procura quando busca quem pode acelerar seu caminho.

Mentor, em grego antigo, é uma palavra construída com peça simples, menos, espírito, força de pensamento, mais o sufixo tor, que forma agente, o mesmo padrão que deu origem a monitor em latim. Méntor significa, de forma quase literal, aquele que cuida, aquele que atenta. Mas por quase três mil anos essa palavra não significou isso para ninguém. Era só o nome próprio de um homem específico dentro de um poema. A transformação de nome próprio em conceito universal é, ela mesma, uma história que vale a pena contar direito.

Antes de partir para Troia, Odisseu confiou a própria casa, e a criação do próprio filho recém-nascido, a um velho amigo chamado Mentor. Ao longo da Odisseia, sempre que a deusa Atena precisa guiar Telêmaco em direção à própria formação como homem e futuro rei, ela assume a forma exata de Mentor para se aproximar dele. Existe um detalhe curioso, quase irônico, escondido dentro do próprio poema original. O Mentor histórico, o homem de carne e osso que Homero descreve, não é retratado como grande guerreiro nem como sábio extraordinário. A sabedoria real que guia Telêmaco vem de Atena, usando o rosto de Mentor como disfarce. Ou seja, desde a origem, a força do mentor nunca esteve na própria genialidade pessoal de quem carrega esse nome. Estava na disposição de emprestar o próprio corpo, a própria proximidade, para que outra coisa, maior do que ele mesmo, pudesse guiar quem precisava.

Durante quase três milênios, gente que lia Homero conhecia o personagem Mentor, mas ninguém usava a palavra para descrever um tipo de relação. A virada aconteceu através de um único livro. Em 1699, o clérigo francês François Fénelon, tutor do neto de Luís XIV, publicou Les Aventures de Télémaque, uma continuação moralizante da Odisseia escrita especificamente para educar o jovem herdeiro do trono francês. No livro de Fénelon, Mentor deixa de ser coadjuvante silencioso e se torna o motor da narrativa inteira, discursando capítulo após capítulo sobre como governar, como escolher bons conselheiros, como manter o próprio apetite sob controle. A obra fez tanto sucesso, e continha uma crítica tão afiada ao absolutismo do próprio rei vivo, que Fénelon perdeu o próprio prestígio na corte francesa. Foi esse livro, traduzido para praticamente toda língua europeia ao longo do século dezoito, que transformou Mentor de nome próprio em substantivo comum, aquele que existe até hoje.

Trazendo isso para o presente, existe um problema silencioso acontecendo com boa parte dos empresários. Muitos estão ouvindo conselho de quem nunca lutou guerra nenhuma, nunca pisou dentro da própria arena, gente que fala de negócio com autoridade emprestada de curso, certificado ou seguidor, sem nunca ter carregado o peso real de uma folha de pagamento atrasada ou de uma decisão que quebraria a empresa se saísse errada. O ser humano nasceu precisando de guia, isso nunca foi o problema. O problema é aceitar qualquer guia só porque ele fala com confiança.

Bill Campbell é o exemplo mais concreto disso que existe na história recente dos negócios. Ele foi técnico principal de futebol americano da Universidade Columbia entre 1974 e 1979, e terminou a própria passagem com um retrospecto de doze vitórias, quarenta e uma derrotas e um empate. Não foi o melhor técnico de time nenhum. Aos trinta e nove anos, sem experiência nenhuma de mercado, trocou o apito pelo mundo corporativo, passou por publicidade, chegou à Apple, depois à Intuit, e só então, já mais velho, descobriu a própria vocação real, orientar outras pessoas em vez de comandar sozinho. Tornou-se, sem nunca cobrar nada por isso, conselheiro de confiança de Steve Jobs, Larry Page, Sergey Brin, Eric Schmidt, Sheryl Sandberg e Jeff Bezos, ganhando o apelido de treinador do trilhão de dólares por causa do valor de mercado combinado das empresas que ele ajudou a formar por trás das cortinas. Campbell nunca precisou ser o maior empresário do mundo para se tornar, possivelmente, o mentor mais valioso da história recente do Vale do Silício. Igual ao Mentor original de Homero, ele emprestou proximidade, confiança e presença constante, não necessariamente a própria genialidade insuperável, para que gente talentosa enxergasse o que sozinha não estava enxergando.

Todo ser humano nasce precisando de alguém que cuide, que atente, na tradução mais literal da própria palavra grega. Mentor pode ser quem já se aposentou da própria arena, quem ainda está lutando dentro dela agora, ou quem, como Bill Campbell, nunca venceu a própria guerra pessoal mas aprendeu, na derrota, exatamente o que fazia falta para ajudar quem venceria a guerra alheia depois. O que separa um mentor de verdade não é o próprio currículo, é a atenção genuína que ele oferece, a escuta que não está esperando a vez de falar, a proximidade de quem se importa o suficiente para encurtar o caminho de outra pessoa em vez de guardar o próprio atalho só para si. Existe uma diferença enorme entre ser intencional, que qualquer um consegue performar por um tempo, e ser atencional, presença real, constante, disposta a apontar o erro pequeno antes que ele vire tropeço grande. Valorize quem faz isso por você. E, quando chegar a sua vez, seja essa luz para alguém, porque é exatamente assim que a palavra mentor sobreviveu três mil anos, não pela genialidade de quem a carregou, mas pela atenção genuína que emprestou a quem precisava enxergar o próprio caminho com mais clareza.