O mito do número um
Há muitos anos, ainda numa igreja, ouvi um pastor que não era o mais famoso da casa, era o segundo na hierarquia, falar sobre o que ele chamou de arte de ser o segundo. Ele valorizava, com uma convicção que ficou na memória, todo mundo que trabalha nos bastidores para que outra pessoa consiga ser o número um visível. Na época aquilo pareceu resignação bonita. Com o tempo, percebi que era outra coisa, uma tese inteira sobre como o mundo mede valor errado.
Todo empresário de sucesso teve alguém do lado. Existe sempre um mais famoso e um menos famoso, um Woz ao lado de um Jobs, um Allen ao lado de um Gates. A pergunta que interessa não é quem era o número um e quem era o número dois. É se essa própria numeração já não é, desde o início, uma forma preguiçosa de organizar algo que raramente funciona em hierarquia fixa.
Em 1972, Marlon Brando ganhou o Oscar de melhor ator por interpretar Vito Corleone em O Poderoso Chefão. Al Pacino, que segundo a contagem de tempo de tela era, na prática, o verdadeiro protagonista do filme, foi inscrito na categoria de coadjuvante e não levou o prêmio naquele ano. Dois anos depois, Robert De Niro interpretou a versão jovem do mesmo Vito Corleone em O Poderoso Chefão II, e ganhou o Oscar, só que na categoria de coadjuvante. O mesmo personagem, a mesma importância narrativa dentro da mesma história, rendeu a estatueta de protagonista para um ator e de coadjuvante para outro, numa decisão que teve mais a ver com estratégia de campanha e posicionamento de categoria do que com o peso real de cada atuação. A crítica especializada até hoje discute o caso como exemplo claro de que a etiqueta protagonista ou coadjuvante muitas vezes não descreve a importância real do papel, descreve apenas onde alguém decidiu posicionar aquele nome no cartaz.
Arqueólogos encontraram, nas alturas dos Andes peruanos, um sepultamento de nove mil anos cercado por vinte pontas de lança e ferramenta de caça cuidadosamente organizadas ao lado do corpo. Todo mundo na escavação presumiu tratar-se de um grande chefe, um caçador de status elevado. O pesquisador Randy Haas, da Universidade da Califórnia em Davis, só reconsiderou quando um colega notou que os ossos eram finos demais para pertencer a um homem adulto. Exame genético confirmou, era uma mulher, provavelmente entre dezessete e dezenove anos. A descoberta, publicada em 2020, levou a equipe a reexaminar outros sepultamentos parecidos espalhados pelas Américas, e a conclusão foi que entre trinta e cinquenta por cento dos grandes caçadores daquele período podem ter sido mulheres, contrariando décadas de suposição de que caçar era função masculina fixa.
Steve Wozniak projetou, sozinho, a placa de circuito que deu origem ao primeiro computador pessoal da Apple. Steve Jobs, com instinto de mercado e senso de apresentação que Wozniak nunca teve interesse em desenvolver, transformou aquilo em produto, marca e narrativa cultural. A dupla é lembrada quase sempre por um único nome, mas a engenharia que sustentava o produto inteiro não veio dele. Perguntar qual dos dois era o número um é perder o ponto inteiro da parceria. A Espanha campeã mundial de 2010 não foi carregada por um único nome, foi construída sobre o coletivo do meio-campo, Xavi, Iniesta e Busquets circulando a bola com uma precisão que dependia dos três juntos, nunca de um sozinho. Em 2026 repetiu exatamente o mesmo feito, vencendo a Argentina de Lionel Messi sem contar com nenhum astro isolado do mesmo nível de fama, o gol do título saiu de Ferran Torres, entrando do banco, e o time levantou a taça liderado pelo capitão Rodri. Duas taças mundiais, dezesseis anos de intervalo, e nas duas vezes o mesmo padrão se repetiu, título construído pelo coletivo, não por um número um isolado.
O psicólogo Dan McAdams, da Northwestern, passou a carreira estudando o que chamou de identidade narrativa, a descoberta de que todo ser humano psicologicamente saudável organiza a própria vida como uma história internalizada, em constante reescrita, na qual essa pessoa ocupa o papel de protagonista navegando desafio, não o de personagem secundário avaliado por outro. Ser o protagonista da própria história não é escolha de personalidade, é estrutura básica de como identidade saudável se organiza, segundo décadas de pesquisa em psicologia narrativa. Os pesquisadores Nicholas Christakis, de Harvard, e James Fowler, então na Universidade da Califórnia em San Diego, analisaram, ao longo de vinte anos, os dados do Framingham Heart Study. A descoberta deles, publicada em 2008 no British Medical Journal, foi que estado de ânimo, comportamento e até hábito se espalham por uma rede social até três graus de distância. Verdade transbordada no trabalho não fica contida dentro da sala onde ela acontece.
A numeração número um, número dois costuma dizer mais sobre quem está de fora observando do que sobre o valor real de quem está dentro construindo. Brando e Pacino interpretando o mesmo tipo de importância sob rótulos diferentes, a caçadora dos Andes catalogada por presunção antes de ser examinada de verdade, Wozniak carregando o peso técnico que raramente aparece na manchete, todos apontam para a mesma direção. Em vários momentos da própria trajetória, qualquer empresário sério vai ocupar o papel mais visível, e em outros tantos momentos vai ser exatamente quem está ao lado quem faz a coisa acontecer de verdade. O papel de cada um não é vencer a comparação com quem está do lado. É ser o número um da própria história, ao lado de outros personagens igualmente cruciais, cada um sendo, ao mesmo tempo, protagonista da própria vida e coadjuvante decisivo da vida de quem caminha perto.
Member discussion