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O mundo é dos generalistas

Tetlock: 28 mil previsões ao longo de 20 anos. Raposas batem porco-espinhos em horizontes longos. Epstein (Range): vencedor do Nobel tem 22x mais chance de ser ator amador. Jobs e a aula de caligrafia.

Existe uma convicção que vale a pena defender com todas as letras, o mundo pertence a quem sabe resolver muitos problemas diferentes, não a quem domina fundo um problema só. O especialista sofre, cedo ou tarde, por acreditar que conhecimento específico basta, quando o sucesso quase nunca se move em linha reta. Especialista tende ao pensamento linear, a força que ele entende é estática. Generalista entende o poder do exponencial, porque sabe, na prática, que nada permanece parado, o mundo dá volta, a força é dinâmica, sobe e desce como montanha russa, não como trilho reto. Dá para saber tudo sobre um assunto específico e mesmo assim se perder, simplesmente por não conseguir enxergar o todo que ninguém mais está olhando.

O psicólogo Philip Tetlock passou vinte anos coletando previsão de perto de trezentos especialistas, economista, cientista político, analista de inteligência, jornalista, reunindo ao final quase vinte e oito mil previsões sobre evento político e econômico. O resultado, publicado no livro Expert Political Judgment, foi humilhante para boa parte da própria classe de especialista, a precisão média das previsões mal superava o acaso. Mas Tetlock encontrou um padrão consistente por trás dos poucos que se saíram bem, emprestando de Isaiah Berlin a distinção entre a raposa e o porco-espinho, o porco-espinho que sabe uma coisa grande e enxerga o mundo inteiro através dela, e a raposa que sabe muitas coisas pequenas e transita entre modelo diferente conforme a situação exige. Os porco-espinhos, presos à própria teoria favorita, erraram sistematicamente mais do que as raposas, especialmente em horizonte de tempo mais longo. Não era o conhecimento específico que separava quem acertava de quem errava. Era o formato do próprio pensamento.

O jornalista científico David Epstein, no livro Range, usa uma distinção do psicólogo Robin Hogarth para explicar por que essa vantagem do generalista não é universal, mas também não é rara. Existe o que Hogarth chama de ambiente gentil, onde a regra é clara, o padrão se repete e o retorno sobre qualquer decisão chega rápido e preciso, golfe, xadrez, música clássica. Nesse tipo de ambiente, especialização precoce compensa. Mas a maior parte da vida real acontece dentro do que Hogarth chama de ambiente traiçoeiro, onde a regra é incompleta ou pouco clara, e o retorno sobre qualquer decisão chega atrasado, distorcido ou os dois ao mesmo tempo. Empreendedorismo é citado por Epstein como exemplo típico desse segundo ambiente. Nele, quem se sai melhor historicamente não é o especialista precoce, é o generalista que amostrou experiência variada antes de se firmar. Epstein também cita um dado que reforça o ponto de um jeito quase irônico, cientista vencedor do prêmio Nobel tem vinte e duas vezes mais chance do que o cientista comum de também ser ator amador, dançarino ou mágico nas horas vagas. Mesmo dentro da ciência, o avanço mais decisivo tende a vir de quem manteve repertório largo, não de quem nunca saiu do próprio corredor.

Steve Jobs contou, num discurso à formatura de Stanford em 2005, que largou a faculdade cedo, mas continuou frequentando, sem obrigação nenhuma de crédito acadêmico, uma aula de caligrafia que o fascinava por puro interesse, sem aplicação prática nenhuma prevista para aquilo na própria vida. Anos depois, projetando o primeiro Macintosh, foi aquela aula, aparentemente inútil, que ele resgatou para desenhar a primeira fonte tipográfica bonita já colocada dentro de um computador pessoal. Jobs resumiu a lição dizendo que não dava para conectar os pontos olhando para frente, só olhando para trás, e por isso era preciso confiar que os pontos, de alguma forma, se conectariam no futuro, mesmo sem nenhuma garantia disso no momento em que cada ponto era vivido.

Empreender nunca foi resolver bem um problema só. O mundo não é ferro e fogo, não é uma variável isolada que, uma vez dominada, garante o resto. Empresário precisa ser bom com gente, precisa de adaptabilidade diante do que ainda não tinha acontecido antes, precisa da capacidade de abstrair o próprio negócio inteiro numa imagem que ninguém mais na sala está enxergando, porque dentro de qualquer empresa existem forças ocultas demais, humana, cultural, financeira, temporal, para que qualquer especialidade única dê conta de administrar todas ao mesmo tempo. O especialista puro tende a tratar cada uma dessas forças como se fosse a única variável relevante, porque essa é a lente que ele conhece bem. O generalista de verdade, treinado a transitar entre modelo diferente sem se apegar a nenhum como verdade absoluta, é quem consegue sentir a montanha russa inteira, a subida, a queda, a curva que ninguém anunciou, e ainda assim continuar de pé no vagão.