A elasticidade de Picasso
Uma das perguntas mais interessantes que já me fizeram foi se Picasso faria sucesso na era digital. A resposta me levou a entender algo sobre elasticidade que muda a forma de pensar qualquer transição de negócio.
Existe uma habilidade que vale mais do que qualquer talento fixo, e Picasso a dominava melhor do que dominava qualquer estilo específico, a capacidade de se esticar para uma forma completamente nova sem quebrar a própria identidade no processo. É a diferença entre um artista que aprendeu a fazer uma coisa muito bem e um artista que aprendeu a se tornar, repetidas vezes, um iniciante confiante em território que nunca tinha pisado antes. A segunda habilidade é rara, difícil de treinar, e vale mais no longo prazo do que a primeira, para um pintor ou para um empresário.
Vale desconfiar de quem responde não, com convicção rápida demais, quando alguém pergunta se Picasso faria sucesso na era digital. Essa resposta costuma esconder um preconceito antigo, a ideia de que artista nasceu só para criar, não para se adaptar, como se criatividade e capacidade de adaptação fossem dois talentos separados. Essa separação não resiste ao exame da própria vida de Picasso. Ele nunca foi só o pintor recluso da própria genialidade. Assinou contrato de exclusividade com o marchand Daniel-Henry Kahnweiler já em 1912, e os dois construíram juntos uma estratégia comercial deliberada, recusando exposição individual convencional, cultivando cliente selecionado, controlando de forma consciente a circulação da própria obra no mercado, uma abordagem que pesquisadores de marketing hoje estudam formalmente como um dos primeiros exemplos bem documentados de gestão de marca pessoal por parte de um artista. Andy Warhol, décadas depois, verbalizou esse mesmo instinto sem nenhum pudor, escrevendo, em 1975, que ganhar dinheiro é arte, trabalhar é arte, e bom negócio é a melhor arte de todas.
Picasso não ficou famoso por um estilo, ficou famoso por trocar de estilo mais rápido do que o próprio mercado conseguia acompanhar. Passou pela fase azul, depois pela fase rosa. Ajudou a inventar o cubismo ao lado de Georges Braque, fragmentando a própria linguagem visual que ele mesmo tinha dominado até ali. Atravessou uma fase neoclássica, pintou Guernica num registro quase jornalístico de protesto contra a guerra, e ainda produziu escultura e gravura ao longo de décadas. Na velhice, já consagrado havia mais de meio século como o maior pintor vivo do mundo, começou a explorar cerâmica a sério, produzindo mais de duas mil peças depois dos sessenta anos de idade, um meio inteiramente novo para as próprias mãos, aprendido do zero numa fase da vida em que a maioria das pessoas já parou de se arriscar em qualquer coisa desconhecida. Um artista realmente preso ao próprio talento original nunca teria essa disposição de recomeçar do zero, tantas vezes, correndo o risco real de ser mediano num meio novo antes de dominá-lo.
Em 1955 e 1956, já com setenta e quatro anos, Picasso aceitou participar de um documentário do diretor francês Henri-Georges Clouzot, chamado Le Mystère Picasso. A proposta era desconfortável para qualquer artista consagrado, desenhar e pintar numa superfície translúcida especial, com a câmera do outro lado captando cada traço se formando ao vivo, sem nenhum controle sobre como aquilo seria editado ou percebido depois. Ao longo de setenta e cinco minutos, ele produziu vinte obras diante da câmera, a maioria destruída logo em seguida, existindo hoje só dentro do próprio filme. O trabalho ganhou prêmio especial do júri em Cannes. O que impressiona nisso não é a técnica, é a disposição. Um homem que já tinha nada a provar para ninguém aceitou ser filmado no próprio processo de errar, testar e recomeçar em tempo real, sem rede de segurança. Isso é elasticidade em estado puro.
Richard Branson construiu a Virgin como uma loja de disco por correspondência em 1970, e a transformou, ao longo de cinco décadas, num conglomerado que hoje reúne mais de quatrocentas empresas em setores que não têm nenhuma relação técnica entre si, gravadora, companhia aérea, telefonia móvel, trem, banco, academia e turismo espacial. Branson não dominava aviação quando fundou a Virgin Atlantic em 1984, nem dominava telecomunicação quando lançou a Virgin Mobile em 1999. Ele repetiu, indústria após indústria, o mesmo movimento de entrar como iniciante disposto a aprender a gramática específica daquele setor, apoiado na própria marca e na própria disposição de arriscar, não num conhecimento técnico prévio que ele simplesmente não tinha. Alguns projetos fracassaram publicamente, como a Virgin Cola e a Virgin Brides, e ele sempre tratou esse fracasso como parte esperada do próprio movimento, encerrando o que não funcionava e seguindo para o território seguinte sem deixar isso abalar a disposição de tentar de novo.
Nenhum empresário talentoso perde o próprio talento ao migrar para um território novo, mas também nenhum talento antigo garante competência automática nesse território sem a disposição de virar, mais uma vez, um iniciante confiante. A pergunta que realmente empodera não é será que eu tenho talento suficiente para essa coisa nova. É será que eu tenho a elasticidade de me permitir ser ruim nela por um tempo, em público, do jeito que Picasso se permitiu na frente da câmera de Clouzot, do jeito que Branson se permitiu em cada indústria nova que decidiu entrar. Essa elasticidade, mais do que qualquer talento fixo, é o verdadeiro traço que separa quem continua crescendo de quem apenas espera que o sucesso antigo continue valendo para sempre, no mesmo lugar, para sempre.
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