As duas perguntas que todo empresário faz, sem saber que são diferentes
Percebi algo que muda a forma de olhar para qualquer momento em que me sinto travado numa decisão importante: existe um tipo de pergunta que nunca vai ter resposta de manual, e tentar encontrá-la assim é a origem de boa parte das frustrações de quem empreende.
Existe uma distinção antiga, quase esquecida fora de sala de aula de filosofia, que resolve um problema muito comum na cabeça de quem empreende. Todo empresário vive fazendo pergunta o dia inteiro. O problema é que existem dois tipos completamente diferentes de pergunta escondidos dentro dessa rotina, e tratar os dois tipos do mesmo jeito é exatamente o que deixa tanta gente boa batendo cabeça sem entender por quê.
Os filósofos chamam de mundo do trabalho tudo aquilo que serve como meio para um fim específico, atividade útil que atende a uma necessidade comum, comida na mesa, roupa no corpo, teto sobre a cabeça. Pergunta desse mundo tem resposta definitiva. Como se produz uma aspirina, como se faz um raio-x, como se corta uma camiseta, existe procedimento, existe manual, existe jeito certo de fazer que, uma vez aprendido, resolve a questão para sempre. Filosofia nasce de um lugar completamente diferente. Platão escreveu que a admiração é a verdadeira característica de quem filosofa, que a filosofia não tem outra origem além dela. Pergunta filosófica não busca utilidade imediata nenhuma, o que é o bem, o que é o homem, o que realmente importa aqui, e por isso mesmo nunca chega numa resposta definitiva e fechada, porque não é esse o objetivo dela. O objetivo é abrir a compreensão, não fechar um procedimento.
A maioria dos empresários vive cem por cento dentro do mundo do trabalho, tratando toda pergunta do próprio negócio como se fosse pergunta de aspirina, com resposta certa esperando para ser encontrada num curso, numa consultoria, numa planilha. Como configurar o sistema, como estruturar o desconto, como fechar a folha de pagamento, tudo isso realmente tem resposta definitiva, e vale aprender direito. Mas existe outro conjunto de pergunta, igualmente presente no dia a dia de qualquer negócio, que não tem esse tipo de resposta e nunca vai ter. O que essa empresa realmente valoriza. Que tipo de cliente vale recusar mesmo sendo lucrativo. O que estou construindo aqui, de verdade, além do próprio faturamento do mês. Empresário que trata essas perguntas como se fossem pergunta de procedimento, esperando uma fórmula pronta, fica frustrado, porque está exigindo do tipo errado de pergunta uma resposta que só o outro tipo oferece.
O educador inglês John Henry Newman escreveu, no século dezenove, que filosofia não é saber de funcionário, é saber de gentleman. A frase soa elitista fora de contexto, mas o que ele queria dizer é mais simples e mais útil do que parece. Funcionário, na linguagem antiga, é quem executa tarefa definida por outro, sem precisar formar julgamento próprio sobre o motivo daquela tarefa existir. Gentleman, nesse sentido específico, é quem desenvolveu a capacidade de formar o próprio julgamento, de decidir o que vale a pena fazer, não só como fazer bem o que já foi decidido por alguém. Traduzindo para negócio sem elitismo nenhum, existe uma diferença enorme entre o empresário que só sabe executar tarefa, mesmo executando com excelência, e o empresário que desenvolveu a própria capacidade de julgar direção, prioridade e valor. O primeiro depende para sempre do manual de outra pessoa. O segundo consegue escrever o próprio manual, porque treinou o tipo de pensamento que nenhuma pergunta de aspirina jamais vai ensinar sozinha.
A educação antiga organizava sete disciplinas livres, gramática, lógica e retórica primeiro, depois aritmética, geometria, música e astronomia, chamadas de artes liberais justamente porque não existiam para tornar ninguém útil numa função específica, existiam para formar mente capaz de pensar com clareza sobre qualquer assunto. Isso não competia com o mundo do trabalho, o complementava. Uma pessoa formada só no ofício sabia fazer, mas raramente sabia por que valia a pena fazer daquele jeito e não de outro. Uma pessoa formada também nas artes livres carregava as duas capacidades ao mesmo tempo.
O empresário que quer sair do próprio impasse não precisa abandonar o mundo do trabalho, precisa parar de tentar resolver toda pergunta dentro dele. Vale separar, de propósito, um tempo fixo para sentar com pergunta que não tem resposta de manual, o que essa empresa está realmente construindo, o que eu faria diferente se não estivesse com medo do resultado do próximo trimestre, que tipo de negócio eu ainda quero ter daqui a dez anos. Nenhuma dessas perguntas tem resposta parecida com como se produz uma aspirina. E é exatamente por isso que sentar com elas, sem pressa de fechar rápido, é o exercício mais parecido que existe com o que a filosofia sempre ofereceu para quem constrói alguma coisa, não uma fórmula pronta, o próprio músculo de julgar bem, mesmo sem manual.
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