O direito de fantasiar
Quero te dar permissão para algo que a maioria dos empresários esconde por vergonha: fantasiar. Existe pesquisa séria mostrando que fazer isso direito é o caminho mais confiável para transformar desejo em realidade.
Existe gente fantasiosa, imaginativa, sonhadora, visionária, que ninguém consegue controlar por completo, e a humanidade lida mal com isso. Vira assunto que só se toca com alguém de muita confiança, quase um segredo mal guardado, porque quem fantasia ou sonha demais costuma ser visto como infantil, ou pior, como problemático. Vale perguntar, sem rodeio, se esse pudor todo realmente se justifica.
Durante boa parte do século vinte, a psicologia tratava devaneio e fantasia como sintoma de mente desregulada, algo mais perto de disfunção do que de saúde mental normal. Foi o psicólogo Jerome Singer quem começou, ainda na década de 1950, e consolidou no livro Daydreaming, de 1966, a primeira pesquisa sistemática sobre o assunto, e o resultado desafiou o próprio campo. Singer descobriu que fantasiar não era, de forma alguma, sinal de mente fraca ou infantil. Descobriu o oposto, quem tinha maior facilidade de fantasiar de forma rica e construtiva também apresentava maior capacidade de resolver problema cotidiano e maior criatividade mensurável. E mais revelador ainda, foi justamente a pessoa mais fechada, com repertório de fantasia mais limitado e mais rígido, que Singer encontrou associada a maior sofrimento psicológico, exatamente o oposto do que o senso comum da época supunha. A neurociência moderna confirmou depois que devanear é o estado padrão do próprio cérebro humano, ativando uma rede neural específica sempre que a atenção se volta para dentro, não uma falha do sistema, um modo de operação genuíno dele.
Aqui entra a parte mais honesta e mais surpreendente da ciência sobre esse tema. A psicóloga Gabriele Oettingen, da Universidade de Nova York, passou mais de vinte anos estudando o que acontece quando alguém fica só na parte da fantasia, sem dar o passo seguinte. O achado, replicado em população diferente, paciente tentando perder peso, estudante buscando emprego, gente tentando beber menos, é desconfortável, quanto mais vividamente a pessoa fantasia sobre o resultado desejado, menos ela realmente avança rumo a ele. Quem imaginou com mais intensidade o próprio sucesso perdeu menos peso, conseguiu emprego pior remunerado, avançou menos no relacionamento que desejava. A explicação de Oettingen é que o cérebro extrai uma recompensa emocional real, e prematura, só de imaginar o resultado, e essa recompensa antecipada relaxa exatamente a tensão que deveria empurrar a pessoa para agir de verdade. A solução que Oettingen desenvolveu, batizada de contraste mental, não pede para ninguém abandonar a fantasia. Pede para completá-la com o passo que a fantasia sozinha nunca entrega, imaginar vividamente o resultado desejado e, logo em seguida, confrontar essa imagem com o obstáculo real que ainda separa a pessoa dele, transformando isso num plano concreto do tipo, se esse obstáculo aparecer, farei isso. Esse método, testado em contexto que vai de sala de aula a paciente hospitalar, aumenta de forma consistente a chance real de a fantasia sair do teatro mental e virar fato.
Será que somos capazes de realizar as fantasias mais desejáveis que carregamos? A ciência responde que sim, mas não pela fantasia sozinha, por mais excitante ou vívida que ela seja. Fantasia pura, sem confronto com obstáculo real e sem plano, tende estatisticamente a ficar só nela mesma, satisfeita com a própria recompensa emocional antecipada. Fantasia levada a sério, disposta a se chocar contra o próprio obstáculo antes de virar ação, é o que separa quem só sonhou de quem realmente chegou lá.
Juntando as duas pontas dessa pesquisa, fica mais fácil entender por que o mundo trata sonhador com tanta desconfiança, e por que essa desconfiança está mal direcionada. Não é fantasiar demais que sinaliza problema, é fantasiar pouco, com repertório limitado e rígido demais para imaginar qualquer coisa fora do já conhecido. Quem consegue montar cena inteira na própria cabeça, com roteiro, personagem e final, está exercitando exatamente a mesma capacidade cognitiva que sustenta criatividade e solução de problema difícil. O erro nunca foi ter a fantasia. Foi, historicamente, escondê-la por vergonha, e depois, quando finalmente resolvida em voz alta para alguém de confiança, parar exatamente aí, sem dar o passo seguinte que transformaria aquele teatro mental em plano real. Fantasiar sem pudor, e depois confrontar essa fantasia com o obstáculo de verdade, não é imaturidade. É, segundo décadas de pesquisa, o caminho mais confiável que existe para transformar desejo em realidade.
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