O trabalho não desaparece, se reorganiza
Toda vez que aparece uma tecnologia nova que ameaça funções do time, ouço a mesma preocupação. Deixa eu te contar o que a história inteira de revoluções tecnológicas já mostrou sobre isso.
Em 1926, existiam dezenas de profissões perfeitamente normais que hoje desapareceram ou viraram nicho raro. O homem do gelo, que entregava bloco gelado porta a porta, sumiu quando a geladeira chegou, mas a indústria de refrigeração explodiu bem além do tamanho daquela profissão original. A telefonista, que conectava manualmente cada ligação, praticamente desapareceu com a central automática e depois com o celular, e telecomunicação virou uma das maiores indústrias do planeta. A datilógrafa sumiu com o computador, mas surgiu um exército de desenvolvedor, designer e analista de dados. O revelador de fotos perdeu relevância com a câmera digital e o smartphone, a Kodak quebrou, e ainda assim a humanidade hoje produz bilhões de vezes mais fotografia do que produzia antes. Quase nenhuma dessas profissões desapareceu porque o trabalho acabou. A tecnologia eliminou a tarefa específica, mas quase sempre recriou, ao redor da mesma necessidade humana, uma ocupação nova e maior do que a anterior.
Dois séculos atrás, parcela enorme da população trabalhava diretamente produzindo alimento. Mecanização, fertilizante, trator e colheitadeira reduziram brutalmente a fração de gente necessária no campo, sem reduzir a produção, que na verdade explodiu. A mão de obra migrou para indústria, depois majoritariamente para serviço. O economista Joseph Schumpeter deu nome a esse mecanismo, destruição criativa, o processo pelo qual toda nova tecnologia destrói uma forma antiga de produzir valor e cria, quase sempre, uma forma nova e maior no lugar dela. A sequência histórica se repete com uma regularidade notável, agricultura, indústria, serviço, economia do conhecimento.
Existe ainda outro mecanismo em jogo, batizado de paradoxo de Jevons pelo economista que o descreveu ainda no século dezenove, observando o consumo de carvão inglês. Quando uma tecnologia reduz drasticamente o custo de uma atividade, às vezes o consumo daquela atividade não cai, explode. Um contador com inteligência artificial consegue fazer sozinho o trabalho que antes exigia vários profissionais, mas se o custo de análise financeira despencar o suficiente, milhões de pequena empresa que jamais contratariam esse serviço no preço antigo podem passar a consumi-lo pela primeira vez. A história econômica não mostra tecnologia eliminando trabalho. Mostra tecnologia eliminando tarefa específica, destruindo profissão específica, e reorganizando onde exatamente o esforço humano continua produzindo valor.
Para o empresário observando a chegada da inteligência artificial com receio de que ela vá substituir o próprio time inteiro, a história econômica oferece um contraponto sólido, não uma garantia, um padrão. Cada onda tecnológica anterior eliminou tarefa específica e recriou ocupação nova ao redor da mesma necessidade humana que nunca desapareceu, alimentar, comunicar, registrar, informar. A pergunta certa não é quantos cargos a inteligência artificial vai eliminar dentro da própria empresa. É para qual nova forma de gerar valor, ainda não totalmente visível, aquela mesma necessidade humana vai migrar assim que a tarefa antiga se tornar barata ou automática demais para continuar sendo o centro do trabalho.
Nesse processo inteiro, o papel do empresário nunca deixou de ser o mesmo, continuar acreditando em gente, mesmo quando acreditar em ferramenta nova parece mais rápido e mais confortável. É o empresário quem decide reorganizar função em vez de simplesmente eliminar posto, quem escolhe formar nova liderança dentro da própria estrutura em vez de tratar cada mudança tecnológica como desculpa para reduzir quadro, quem entende que gerar emprego de verdade nunca foi apenas preencher vaga, foi abrir caminho real de crescimento para quem está do outro lado da mesa. Nenhuma inteligência artificial, por mais sofisticada que fique, vai substituir a inteligência humana original, aquela que sente o problema do cliente na própria pele, que enxerga potencial em outro ser humano antes de qualquer métrica confirmar, que decide investir em gente numa hora em que seria mais fácil, e mais barato, investir só em máquina. Quem se prepara para reorganizar em vez de só temer, e continua apostando em gente enquanto reorganiza, tende a estar do lado que a destruição criativa historicamente recompensa.
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