Quanto esforço é necessário para continuar humano
Existe uma pergunta que vivo fazendo para mim mesmo enquanto a inteligência artificial entra cada vez mais rápido nos negócios: quanto de esforço humano ainda precisa existir para que o julgamento não atrofie junto com as tarefas que a máquina assumiu?
Quanto mais terceirizamos esforço, escolha e julgamento para um sistema externo, menos exercitamos a capacidade correspondente, e capacidade não exercitada tende a atrofiar. A psicologia cognitiva já tem nome para isso, offloading cognitivo, a transferência de trabalho mental para ferramenta externa. Escrita já era isso. Calculadora também. Nenhuma das duas é vilã dessa história. O problema começa quando o que terceirizamos deixa de ser memória ou execução repetitiva e passa a ser julgamento.
O GPS oferece o exemplo mais bem documentado disso em pesquisa publicada. Em 2020, as pesquisadoras Louisa Dahmani e Véronique Bohbot, da Universidade McGill, mediram a experiência de vida inteira com GPS em cinquenta motoristas regulares e testaram a memória espacial de cada um, sem qualquer ajuda de navegação. Quem tinha usado GPS por mais tempo ao longo da vida navegava pior sozinho, e o efeito não vinha de a pessoa já ter senso de direção ruim antes, o uso extensivo é que provocava o declínio, não o contrário. Numa segunda rodada, três anos depois, quem aumentou o próprio uso de GPS nesse intervalo mostrou queda mensurável na função do hipocampo relacionada à memória espacial. Calculadora elimina cálculo desnecessário sem roubar inteligência de quem já construiu fundamento matemático antes dela. GPS, usado sem pausa, parece corroer justamente a capacidade que substitui.
Existe uma diferença entre consultar alguém que entende de cinema, ler crítica, escolher entre poucas opções numa locadora, e simplesmente abrir um aplicativo que já sabe o que você provavelmente vai assistir. A primeira situação carregava fricção, e a fricção obrigava alguma participação ativa. A segunda pergunta que um sistema de recomendação resolve não é o que essa pessoa deveria conhecer para ampliar o próprio repertório, é o que vai fazer essa pessoa continuar assistindo. O especialista antigo podia surpreender. O algoritmo aprende o gosto que você já tem e devolve mais dele, refinado, sem nunca precisar ampliá-lo. Isso revela uma diferença que vale a pena guardar, preferência não é a mesma coisa que gosto. Preferência é o que você tende a escolher automaticamente. Gosto é uma capacidade que se educa ao longo do tempo, com atrito, com exposição a coisa difícil, com escolha ativa.
Vale notar, com honestidade, que romantizar o passado seria ingenuidade. Industrialização resolveu fome, mortalidade infantil, trabalho exaustivo e escassez de informação em escala que nenhum saudosismo justifica trocar de volta. Mas ela também mudou a relação com objeto e cultura de um jeito que raramente se discute. Quando produzir era caro, preservava-se o que já existia. Quando informação era escassa, procurava-se ativamente por ela. Quando uma máquina fotográfica só permitia vinte e quatro ou trinta e seis poses, cada clique exigia escolha consciente sobre o que valia registrar. Escassez impunha atenção sem pedir licença. Abundância exige que a própria pessoa imponha atenção sobre si mesma, sem nenhuma fricção externa para ajudar nisso. Talvez a formulação mais defensável não seja que estamos ficando mais burros. É que estamos ficando mais passivos.
Dá para assistir a trezentos filmes e entender pouco de cinema, ouvir dez mil músicas e não conhecer música de verdade, viajar para cinquenta países e compreender pouco sobre cultura alheia, ler cem resumos de livro e nunca ter enfrentado um livro difícil até o fim. Quantidade de exposição não é sinônimo de profundidade. O grande risco da abundância pode não ser produzir informação demais, pode ser deixar de precisar desenvolver justamente as capacidades que a escassez, sem pedir permissão, sempre forçou a desenvolver.
O filme Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989, muito antes de existir Netflix, smartphone ou inteligência artificial generativa, funciona quase como profecia dessa mesma tese. A escola Welton do filme não é fábrica de ignorância, é fábrica de eficiência. Os alunos estudam muito, existe disciplina, método e tradição, e são academicamente privilegiados, não o contrário. O problema que o professor John Keating confronta é outro, mais sutil, eles foram treinados a reproduzir resposta esperada antes de desenvolver julgamento próprio sobre qualquer coisa. Numa cena central, Keating manda os alunos rasgarem a introdução do livro de poesia, que ensinava a avaliar um poema através de fórmula matemática. Poesia não existe só para transmitir informação de forma eficiente. Cinema não existe só para preencher duas horas. Quando tudo vira produto otimizado para consumo mais rápido e mais fácil, corre-se o risco real de confundir o que é facilmente mensurável com o que realmente possui valor. A atualização natural do carpe diem do Keating para hoje é simples de escrever, e mais difícil de praticar, nem deixe que o algoritmo pense completamente no seu lugar.
A tese inteira não é contra tecnologia, inteligência artificial ou produtividade, nenhuma dessas coisas precisa de inimigo. É contra eficiência sem discernimento. Para quem lidera negócio, isso se traduz em uma separação prática entre dois tipos de tarefa. Existe a tarefa de memória e execução repetitiva, agenda, cálculo financeiro simples, compilação de dado, primeira versão de texto padrão, que pode e deve ser delegada a sistema, sem culpa nenhuma. E existe a tarefa de julgamento, quem contratar, que cliente recusar mesmo sendo lucrativo, que direção a empresa deveria tomar quando o dado disponível aponta em duas direções ao mesmo tempo, que não deveria ser transferida por inteiro para nenhum painel automático, sob pena de a própria capacidade de julgar atrofiar exatamente como a memória espacial atrofia em quem larga o GPS. Vale, na prática, escolher deliberadamente alguns momentos de fricção que a tecnologia já tornaria dispensáveis. Quando tudo está disponível o tempo inteiro, ter acesso deixa de ser vantagem competitiva, porque todo concorrente também tem. Saber escolher, com critério próprio treinado, passa a ser a vantagem real.
Member discussion