A necessidade de ter alguém que dependa de você
Existe uma pergunta desconfortável que vale a pena levar a sério, em vez de descartar rápido demais só porque incomoda. Por que o ser humano sente tanta necessidade de controlar, de mandar, de ser autoridade sobre alguma coisa, mesmo quando essa coisa é um bichinho de estimação dentro de casa? A pergunta merece investigação honesta, não uma resposta pronta que já nasce satisfeita com a própria indignação.
Vale começar pela história real, não pela suposição. O primeiro zoológico do mundo ainda em funcionamento, o Tiergarten Schönbrunn, em Viena, nasceu em 1752 como menagerie particular do imperador Francisco I, marido de Maria Teresa da Áustria. Não nasceu como projeto de conservação nem de educação, nasceu como demonstração explícita de poder e prestígio imperial, animal exótico trazido de expedição financiada pela coroa, exibido para impressionar visitante e reafirmar o alcance do próprio império. Só ficou aberto ao público em 1779, e só ao longo do século seguinte passou a se apresentar sob a linguagem de conservação e bem-estar animal que hoje qualquer zoológico usa para se justificar. A mudança de discurso é real, documentada, e aconteceu exatamente na direção que a intuição sugere, de exibição de domínio para instituição moralmente respeitável, num intervalo de pouco mais de um século.
A crítica ao papel de salvador que o ser humano assume diante da natureza também tem base documentada, e não precisa de exagero para ser grave. O jornalista Mark Dowie publicou, em 2009, um livro chamado Conservation Refugees, mostrando que, desde 1900, mais de cento e oito mil áreas de conservação foram criadas ao redor do mundo, cerca de metade delas ocupadas ou usadas havia gerações por povo indígena, que precisou ser removido em nome da proteção da natureza. Um dos líderes indígenas citados no livro resumiu a ironia numa frase dura, fomos expulsos em nome de rei e imperador, depois em nome do desenvolvimento do estado, e agora em nome da conservação. Dowie não nega que a proteção ambiental seja necessária, mas documenta como organizações de conservação, muitas vezes bem-intencionadas, se posicionaram como heroínas salvadoras da natureza enquanto causavam deslocamento real de gente que já vivia de forma sustentável naquele território havia séculos. Esse é um exemplo concreto e mensurável do padrão que a pergunta original toca, alguém se colocando como grande, iluminado e necessário, enquanto o próprio ecossistema, e a comunidade que já cuidava dele, seguiam sendo mais capazes do que o discurso do salvador queria admitir.
Chegando ao ponto mais delicado, o paralelo entre manter um animal de estimação e dinâmicas de dependência, a honestidade exige examinar os dois lados antes de aceitar qualquer equivalência fácil. Em 2015, a pesquisadora japonesa Miho Nagasawa publicou, na revista Science, um estudo que mediu algo notável, quando cão e dono trocam olhar prolongado, os dois liberam ocitocina, o mesmo hormônio que vincula mãe e bebê recém-nascido, e esse efeito não aconteceu entre lobo e seu criador humano, mesmo quando o lobo foi criado desde filhote pela mesma pessoa. A conclusão dos pesquisadores foi que esse mecanismo de vínculo mútuo evoluiu ao longo de milênios de domesticação conjunta, não foi imposto numa única direção. Isso indica algo estruturalmente diferente de uma captura forçada, um cão doméstico não perdeu autonomia porque foi subjugado por medo dentro de uma única vida, a espécie inteira foi remodelada geneticamente ao longo de milhares de anos de convivência mutuamente vantajosa com humano.
Isso não anula a parte mais interessante da pergunta original, a necessidade humana de ter alguém, ou alguma coisa, que dependa dele. Existe pesquisa real mostrando que cuidar de outro ser vivo ativa, no cérebro humano, circuito parecido ao da relação entre pai e filho, e que esse papel de cuidador preenche uma necessidade genuína de propósito e vínculo. A pergunta que vale a pena manter, sem precisar de resposta confortável, é até que ponto esse cuidado nasce de generosidade genuína e até que ponto nasce da própria carência de ser necessário por alguém. Provavelmente as duas coisas coexistem na mesma pessoa, ao mesmo tempo, e reconhecer essa mistura, sem fingir que só existe o lado bonito da história, já é mais honestidade do que a maioria está disposta a praticar sobre o próprio comportamento.
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