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Riqueza sem repertório é apenas número na conta

Os Médici financiaram Michelangelo, Botticelli e Da Vinci. Veblen (1899): consumo conspícuo. Spence (1973): sinais confiáveis custam tempo, não dinheiro. O que separa patrimônio de legado.

Existe um tipo de riqueza que parece sólida e ainda assim é oca por dentro. Vi isso de perto: empresário que chegou lá, no sentido do saldo, e ficou com cara de quem nunca foi a lugar nenhum.

Existe um tipo de empresário que confundiu prosperidade com acúmulo. Mede o próprio sucesso pelo saldo, pela marca do carro, pela metragem da casa, e vai empilhando esses números como quem empilha tijolo sem projeto. Em algum momento percebe, geralmente tarde, que ficou rico e continuou pobre. Pobre de repertório, pobre de memória, pobre da capacidade de sentar à mesa e falar sobre qualquer coisa além do próprio negócio. É como um vinho engarrafado cedo demais, guardado no lugar errado, que por fora até parece safra boa mas por dentro nunca desenvolveu nada.

A história dos negócios já mostrou, mais de uma vez, o oposto disso funcionando na prática. A família Médici, em Florença, construiu fortuna administrando banco durante o século quinze, mas não é lembrada até hoje só pelo saldo que acumulou. É lembrada porque converteu parte dessa fortuna em patrocínio direto a Michelangelo, Botticelli e Leonardo da Vinci, entendendo cedo que capital sem repertório vira apenas número esquecido, enquanto capital investido em cultura, em beleza e em conhecimento constrói legado que atravessa século. Nenhum banco florentino do período é hoje tão lembrado quanto o nome Médici, e a diferença entre os dois destinos nunca foi o tamanho do cofre, foi o que aquele cofre foi usado para financiar além de si mesmo.

Existe uma fantasia que o empresário brasileiro aprendeu a vestir para ser levado a sério. Terno escuro, sem cor, sem opinião pública, sem gosto pessoal declarado, como se profundidade nos negócios exigisse rigidez em tudo o mais. Reunião de empresário às vezes parece assembleia de deputados, todo mundo de preto, todo mundo com o mesmo corte de terno, como se estilo próprio fosse sinal de imaturidade e não de identidade formada. Esse uniforme cobra um preço que quase ninguém nomeia, o preço de se encolher para caber. De deixar de usar cor porque cor parece pouco sério, de não comentar sobre um livro, uma exposição, uma viagem fora do óbvio, porque isso soa como distração de quem devia estar pensando em EBITDA. O psicólogo Solomon Asch já havia demonstrado, em experimentos de 1951, o quanto pressão de grupo é capaz de fazer alguém repetir julgamento visivelmente errado só para não destoar dos demais na sala. O empresário que se veste, fala e pensa igual a todo mundo ao redor está, com frequência, pagando o mesmo preço medido por Asch décadas atrás, trocando julgamento próprio por conforto de pertencimento superficial.

Nem todo empresário que rompeu essa fantasia pagou caro por isso. Steve Jobs construiu identidade pessoal inteira ao redor de uma gola alta preta, repetida todos os dias, não porque fugia de uniforme, mas porque escolheu o próprio, deliberadamente, em vez de aceitar o que o mercado já tinha decidido por ele. O empresário que só enxerga o próprio setor, que só lê sobre o próprio mercado, que só frequenta quem pensa exatamente igual, tende a tomar decisão pior, não melhor. Fica refém de fórmula. Repertório amplo não é distração do trabalho sério, é o material bruto de onde vêm as decisões mais originais.

Tem gente que confunde ambiente sofisticado com ambiente neutro. Um lugar que aceita qualquer convicção não protege ninguém, e não constrói pertencimento nenhum. Existe diferença enorme entre recusar reducionismo e recusar posição. Em 1947, um grupo de trinta e nove economistas, historiadores e filósofos se reuniu num hotel na vila suíça de Mont Pelerin, convocado pelo economista Friedrich Hayek, e fundou ali a Sociedade Mont Pelerin, com o objetivo explícito de defender liberdade econômica como valor moral, não apenas como estratégia de política pública. Fazer parte daquele grupo já era, por si só, uma declaração pública de convicção, numa época em que essa convicção específica estava em franca desvantagem intelectual. Acreditar com convicção em livre mercado como condição para que empreender continue sendo possível não é o mesmo que discutir partido, herói ou vilão nesse sentido raso de torcida. É reconhecer que existe uma linha entre quem acredita que riqueza se constrói e quem acredita que riqueza se reparte, e essa linha importa mais do que qualquer sigla.

Nem todo empresário precisa de relógio suíço no pulso ou de carro alemão na garagem para provar que chegou lá. Esses símbolos são linguagem emprestada, dizem eu cheguei usando o vocabulário de quem definiu o que é chegar antes de qualquer um. O economista Thorstein Veblen já descrevia, em 1899, esse tipo de consumo como consumo conspícuo, a compra feita não pelo valor de uso do objeto, mas pelo status que ele sinaliza aos outros. O problema desse tipo de sinal é que ele é democratizável demais. Qualquer um com dinheiro rápido compra o mesmo relógio, financia o mesmo carro, posta a mesma foto. O economista Michael Spence, que receberia o Nobel décadas depois por esse trabalho, descreveu em 1973 por que certos sinais são confiáveis e outros não, um sinal só carrega informação real quando é caro o suficiente, em tempo ou em esforço, para que quem não tem a qualidade anunciada não consiga facilmente fingir tê-la. Um relógio se compra numa tarde com dinheiro suficiente. Repertório não. Ele exige tempo, curiosidade e memória acumulada ao longo de anos, e é exatamente por isso que funciona como sinal mais confiável do que qualquer objeto.

Existe um ditado que diz que somos fruto do meio. Isso é verdade só em parte. O psicólogo Julian Rotter descreveu, em 1954, o conceito de lócus de controle, a diferença entre quem acredita que o próprio resultado depende principalmente de fator externo e quem acredita que depende principalmente da própria ação. Décadas de pesquisa confirmaram que pessoas com lócus de controle interno tendem a perseverar mais diante de obstáculo e a alcançar resultado mais consistente, justamente porque não terceirizam a própria responsabilidade para o ambiente ao redor. Sam Walton fundou o Walmart em Bentonville, uma cidade pequena do interior do Arkansas, e nunca mudou a sede para Nova York ou Chicago, mesmo depois de construir a maior rede de varejo do mundo. Ele apostou que atitude constrói onde está, em vez de esperar um lugar mais glamouroso para começar de verdade.

Vivemos num tempo em que tudo precisa justificar a própria utilidade. Se não tem aplicação imediata, é considerado perda de tempo. Nesse processo, o empresário médio foi perdendo a capacidade de contemplar, de admirar algo só porque é bonito, sem precisar transformar essa beleza em produto ou em conteúdo. Contemplação não é o oposto de produtividade, é o que alimenta a produtividade que realmente importa. O empresário que nunca para para admirar, que nunca se permite gostar de algo sem calcular o retorno daquilo, vai secando por dentro até virar só função. Produz, mas para de criar, e criação de verdade, aquela que muda um negócio, quase sempre nasce de algo que foi contemplado antes de ser explicado. Gostar de um vinho pelo sabor, de uma música pela beleza, de uma viagem pela memória que ela deixa, sem precisar justificar nada disso como estratégia, não é acessório. É sinal de que a pessoa ainda tem espaço interno para admirar o mundo.

O empresário que atravessa esse tipo de convivência não sai com diploma nenhum. Sai com memória compartilhada, com relação que se aprofundou porque houve espaço para ser inteiro, com decisão melhor porque teve contato com repertório diferente do próprio. Sai, sobretudo, com a permissão de não precisar escolher entre ser levado a sério nos negócios e ser autêntico como pessoa. Isso não é escola, porque escola promete conhecimento novo e entrega certificado. Não é rede de contato, porque rede de contato promete quantidade e entrega superficialidade. É o reconhecimento de que quem acredita em liberdade, que constrói riqueza como consequência de gerar valor real, e que se recusa a viver de preto básico e discurso raso, sabe reconhecer outro igual a ele assim que o encontra pela frente.