Piscinão contra profundeza
Uma das imagens que mais uso para entender como as pessoas se relacionam com qualquer coisa que exige fôlego real veio de um lugar que ninguém esperaria: o Piscinão de Ramos.
O Piscinão de Ramos, na zona norte do Rio de Janeiro, é uma das maiores piscinas públicas do mundo, construída sobre um antigo aterro na Baía de Guanabara, e recebe multidão todo fim de semana de verão. A água raramente passa da cintura. É exatamente por isso que funciona. Criança, adulto, gente que nunca aprendeu a nadar, todo mundo cabe ali, sem risco, sem pressão, sem profundidade nenhuma para assustar ninguém. O oceano, a poucos quilômetros dali, oferece o oposto inteiro. Poucos metros abaixo da superfície já falta luz suficiente para enxergar, a pressão aumenta sem parar, e a maior parte da vida marinha se concentra justamente nos primeiros duzentos metros de água, onde ainda existe luz solar suficiente para sustentar cadeia alimentar. Abaixo disso, a vida continua existindo, mas rarefeita, estranha, adaptada a condição extrema, e sozinha com muito mais frequência do que companhada.
Essa mesma lógica se repete, quase sem exceção, em relacionamento, em negócio e em estudo. Ficar na superfície de qualquer coisa é confortável, acessível, cabe todo mundo junto, sem risco de afundar em nada que exija fôlego real. Aprofundar exige o oposto de tudo isso, exige aguentar pressão crescente, aceitar que vai enxergar cada vez menos luz guiando o próprio caminho, e faz companhia cada vez mais rara, porque a maioria simplesmente prefere ficar de pé na água rasa, olhando para o horizonte sem nunca precisar nadar até ele.
Os psicólogos Irwin Altman e Dalmas Taylor descreveram, em 1973, como a intimidade entre duas pessoas se desenvolve em camadas, parecido com descascar uma cebola. As camadas externas são públicas, fáceis de compartilhar, cidade onde mora, time de futebol, opinião sobre o tempo. As camadas internas, mais próximas do núcleo, guardam medo, valor, história que a pessoa não conta para qualquer um. A maioria das relações modernas nunca sai da casca externa, porque cada camada mais profunda exige exposição maior, e exposição maior sempre carrega risco maior de ser rejeitado ou magoado por quem está do outro lado. Ficar na casca é seguro. É também, quase sempre, superficial demais para produzir o tipo de vínculo que realmente sustenta alguém num momento difícil.
Dentro de qualquer empresa, o mesmo mecanismo funciona com impressionante regularidade. A pesquisadora de sistemas Donella Meadows popularizou um modelo conhecido como iceberg, usado até hoje em consultoria de gestão para descrever como a maioria das pessoas analisa problema dentro de uma empresa.
No topo do iceberg, visível acima da água, está o evento, a queda de faturamento do mês, o cliente que cancelou, o funcionário que pediu demissão. É a camada mais fácil de enxergar e, por isso, a mais comentada. Logo abaixo da superfície está o padrão, a mesma queda se repetindo há três meses seguidos, não apenas nesse. Mais abaixo ainda está a estrutura, o processo, o incentivo ou a falha de sistema que produz esse padrão de forma consistente. E na base do iceberg, quase nunca visitada, está o modelo mental, a crença ou suposição não questionada que sustenta toda a estrutura por cima dela.
A maioria dos empresários resolve problema no nível do evento, porque é o único nível visível sem esforço, e porque supor uma causa simples é sempre mais rápido do que investigar uma estrutura complexa. Tirar conclusão precipitada a partir de um único evento é o equivalente empresarial de nunca sair do Piscinão, resolve o desconforto imediato, sem nunca alcançar a causa que vai continuar produzindo o mesmo problema, mês após mês, exatamente como antes.
Segundo a agência americana de oceanografia, mais de oitenta por cento do oceano do planeta segue sem mapeamento, sem observação, sem exploração, mesmo depois de décadas de tecnologia avançada disponível. Não é falta de curiosidade humana, é que descer é caro, difícil e exige equipamento capaz de resistir a uma pressão que a maioria das estruturas simplesmente não aguenta. A mesma física se aplica, de forma menos literal, a qualquer mergulho em relação, em dado ou em ideia. Quanto mais fundo, menos gente disposta a acompanhar, porque menos gente construiu, ao longo da vida, a capacidade de aguentar a pressão que a profundidade exige sem recuar no meio do caminho.
Isso explica por que o raso está sempre cheio e o fundo está quase sempre vazio. Não é que a profundidade seja menos valiosa, é o contrário, a maior parte da diversidade genuinamente interessante do oceano mora exatamente nas zonas que ninguém visita. Mas alcançar ela exige a coragem de aceitar solidão temporária, pressão real e visibilidade cada vez menor, trocando a certeza confortável da água rasa pela possibilidade desconfortável de encontrar, lá embaixo, algo que ninguém mais teve paciência de procurar.
Member discussion