3 min de leitura

Piscinão contra profundeza

Por que todo mundo prefere o raso ao fundo? Altman e Taylor, Donella Meadows e o Piscinão de Ramos descrevem o mesmo mecanismo de três formas diferentes.

Uma das imagens que mais uso para entender como as pessoas se relacionam com qualquer coisa que exige fôlego real veio de um lugar que ninguém esperaria: o Piscinão de Ramos.

O Piscinão de Ramos, na zona norte do Rio de Janeiro, é uma das maiores piscinas públicas do mundo, construída sobre um antigo aterro na Baía de Guanabara, e recebe multidão todo fim de semana de verão. A água raramente passa da cintura. É exatamente por isso que funciona. Criança, adulto, gente que nunca aprendeu a nadar, todo mundo cabe ali, sem risco, sem pressão, sem profundidade nenhuma para assustar ninguém. O oceano, a poucos quilômetros dali, oferece o oposto inteiro. Poucos metros abaixo da superfície já falta luz suficiente para enxergar, a pressão aumenta sem parar, e a maior parte da vida marinha se concentra justamente nos primeiros duzentos metros de água, onde ainda existe luz solar suficiente para sustentar cadeia alimentar. Abaixo disso, a vida continua existindo, mas rarefeita, estranha, adaptada a condição extrema, e sozinha com muito mais frequência do que companhada.

Essa mesma lógica se repete, quase sem exceção, em relacionamento, em negócio e em estudo. Ficar na superfície de qualquer coisa é confortável, acessível, cabe todo mundo junto, sem risco de afundar em nada que exija fôlego real. Aprofundar exige o oposto de tudo isso, exige aguentar pressão crescente, aceitar que vai enxergar cada vez menos luz guiando o próprio caminho, e faz companhia cada vez mais rara, porque a maioria simplesmente prefere ficar de pé na água rasa, olhando para o horizonte sem nunca precisar nadar até ele.

Os psicólogos Irwin Altman e Dalmas Taylor descreveram, em 1973, como a intimidade entre duas pessoas se desenvolve em camadas, parecido com descascar uma cebola. As camadas externas são públicas, fáceis de compartilhar, cidade onde mora, time de futebol, opinião sobre o tempo. As camadas internas, mais próximas do núcleo, guardam medo, valor, história que a pessoa não conta para qualquer um. A maioria das relações modernas nunca sai da casca externa, porque cada camada mais profunda exige exposição maior, e exposição maior sempre carrega risco maior de ser rejeitado ou magoado por quem está do outro lado. Ficar na casca é seguro. É também, quase sempre, superficial demais para produzir o tipo de vínculo que realmente sustenta alguém num momento difícil.

Dentro de qualquer empresa, o mesmo mecanismo funciona com impressionante regularidade. A pesquisadora de sistemas Donella Meadows popularizou um modelo conhecido como iceberg, usado até hoje em consultoria de gestão para descrever como a maioria das pessoas analisa problema dentro de uma empresa.

No topo do iceberg, visível acima da água, está o evento, a queda de faturamento do mês, o cliente que cancelou, o funcionário que pediu demissão. É a camada mais fácil de enxergar e, por isso, a mais comentada. Logo abaixo da superfície está o padrão, a mesma queda se repetindo há três meses seguidos, não apenas nesse. Mais abaixo ainda está a estrutura, o processo, o incentivo ou a falha de sistema que produz esse padrão de forma consistente. E na base do iceberg, quase nunca visitada, está o modelo mental, a crença ou suposição não questionada que sustenta toda a estrutura por cima dela.

A maioria dos empresários resolve problema no nível do evento, porque é o único nível visível sem esforço, e porque supor uma causa simples é sempre mais rápido do que investigar uma estrutura complexa. Tirar conclusão precipitada a partir de um único evento é o equivalente empresarial de nunca sair do Piscinão, resolve o desconforto imediato, sem nunca alcançar a causa que vai continuar produzindo o mesmo problema, mês após mês, exatamente como antes.

Segundo a agência americana de oceanografia, mais de oitenta por cento do oceano do planeta segue sem mapeamento, sem observação, sem exploração, mesmo depois de décadas de tecnologia avançada disponível. Não é falta de curiosidade humana, é que descer é caro, difícil e exige equipamento capaz de resistir a uma pressão que a maioria das estruturas simplesmente não aguenta. A mesma física se aplica, de forma menos literal, a qualquer mergulho em relação, em dado ou em ideia. Quanto mais fundo, menos gente disposta a acompanhar, porque menos gente construiu, ao longo da vida, a capacidade de aguentar a pressão que a profundidade exige sem recuar no meio do caminho.

Isso explica por que o raso está sempre cheio e o fundo está quase sempre vazio. Não é que a profundidade seja menos valiosa, é o contrário, a maior parte da diversidade genuinamente interessante do oceano mora exatamente nas zonas que ninguém visita. Mas alcançar ela exige a coragem de aceitar solidão temporária, pressão real e visibilidade cada vez menor, trocando a certeza confortável da água rasa pela possibilidade desconfortável de encontrar, lá embaixo, algo que ninguém mais teve paciência de procurar.