Empreender é uma arte
Sempre que alguém me pergunta o que é empreender, eu poderia responder com número ou com estratégia. Mas quando paro e penso no que realmente é isso que a gente faz, a resposta mais honesta que tenho é simples: é uma arte.
Empreender é uma arte, algo belo e, antes de qualquer outra coisa, filosófico. Não no sentido decorativo da palavra, mas no sentido mais antigo dela. A arte de resolver problema real, movida por uma filosofia que gera valor para a sociedade e transcende o lucro. O propósito de construir um negócio nunca foi só faturar. É mobilidade social, é gerar emprego, é tirar gente da pobreza, é solucionar problema que causava dor de verdade, é tornar a vida de outra pessoa concretamente melhor.
Tem uma raiz histórica nessa ideia que eu acho fascinante. Os gregos antigos não separavam arte de técnica do jeito que o mundo moderno separa. Usavam uma única palavra, techne, para descrever qualquer atividade que exigisse habilidade aplicada com propósito. A escultura, a medicina, a navegação e a construção estavam todas dentro dessa mesma categoria. Aristóteles tratava techne como o conhecimento de como produzir algo que não existiria sem a intervenção humana guiada por método e por intenção. Sob essa definição original, um empreendedor que enxerga um problema real, desenha uma solução funcional e a executa com disciplina está exercendo exatamente o tipo de atividade que os gregos consideravam arte. Produzir, com habilidade e propósito, algo que o mundo não teria sem essa intervenção específica.
Essa ideia ganhou um novo enquadramento no século vinte, com o filósofo americano John Dewey. Em 1934, ele publicou um livro chamado Art as Experience, argumentando contra a ideia de que arte pertence apenas a museu, quadro emoldurado e sala de concerto. Para Dewey, arte é qualquer processo em que alguém organiza material bruto, seja tinta, som, madeira ou circunstância, transformando-o em algo que produz experiência significativa para quem participa dela. A beleza, na visão dele, não mora no objeto pronto e exposto. Mora no processo vivo de dar forma a algo que antes era caos ou carência. Um negócio que nasce para resolver uma dor real segue exatamente essa lógica.
O economista austríaco Joseph Schumpeter foi além. Ele cunhou a expressão destruição criativa para descrever o papel do empreendedor dentro de uma economia, o agente que introduz combinação nova de recurso, produto ou processo, destruindo estrutura antiga para dar lugar a algo mais capaz de servir a sociedade. Para Schumpeter, o empreendedor não administra recurso existente. Cria combinação nova que antes não existia, o mesmo tipo de ato criativo que qualquer definição séria de arte exige.
O caso que torna tudo isso mais do que teoria está no Bangladesh, em 1976. Muhammad Yunus, economista bengalês, emprestou vinte e sete dólares do próprio bolso para um grupo de artesãos pobres de uma aldeia que não conseguiam crédito em banco nenhum por falta de garantia. A partir desse gesto simples nasceu o Grameen Bank, construído sobre a aposta de que o pobre também honra compromisso quando recebe confiança em vez de exigência de garantia formal. Décadas depois, o banco já havia emprestado mais de trinta e cinco bilhões de dólares a mais de dez milhões de tomadores, com taxa de pagamento superior a noventa e sete por cento, muito acima da taxa de bancos tradicionais em empréstimo para família de renda alta. Em 2006, Yunus e o Grameen Bank dividiram o Prêmio Nobel da Paz, não o de economia. O comitê norueguês reconheceu que a paz duradoura depende diretamente da capacidade de grandes grupos populacionais encontrarem um caminho real para sair da pobreza, e o microcrédito provou ser um desses caminhos.
Yunus não inventou caridade. Inventou um modelo de negócio, replicado em mais de cem países, que devolveu a milhões de famílias, principalmente mulheres, a capacidade de comprar uma vaca, algumas galinhas, o instrumento de trabalho que faltava para sair do próprio ciclo de pobreza pelas próprias mãos. Nenhuma dessas famílias recebeu doação. Recebeu crédito, confiança e a chance de aplicar a própria capacidade produtiva. O tipo exato de valor que transcende lucro sem nunca abrir mão dele, porque foi o lucro bem desenhado, não a ausência dele, que sustentou o modelo por décadas e permitiu escalar a solução para o mundo inteiro.
Empreender, sob essa luz, deixa de ser apenas uma atividade econômica e passa a ocupar o lugar que os gregos reservavam para techne, que Dewey reservava para arte, e que Schumpeter reservava para o verdadeiro motor de transformação de uma sociedade. Resolver problema real, com habilidade, disciplina e intenção, gerando emprego, dignidade e caminho de saída da pobreza para quem antes não tinha nenhum, é, ao mesmo tempo, ofício, filosofia e ato criativo. O lucro continua sendo parte necessária dessa equação, do mesmo jeito que a tinta é parte necessária de um quadro. Mas nunca foi, e nunca deveria ser, o quadro inteiro.
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