Os sete céus do trabalho
Há setecentos e dez anos, um poeta florentino exilado começou a desenhar a arquitetura completa do movimento humano. Dante Alighieri não escreveu apenas um poema sobre o além. Escreveu um mapa de como as pessoas se movem em direção ao que desejam, e do que acontece quando esse movimento é guiado por diferentes forças internas.
A estrutura é precisa. Dez formas de mover-se mal, reunidas no Inferno. Sete formas de querer o bem e fracassar no caminho, os terraços do Purgatório, onde a soberba, a inveja, a ira, a acídia, a avareza, a gula e a luxúria são purgadas uma a uma. E dez formas de mover-se bem, os céus do Paraíso, culminando no Empíreo, onde a alma finalmente contempla sem véu aquilo que buscava.
Os primeiros sete céus do Paraíso são os sete céus planetários da cosmologia antiga: Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Dante não os escolheu por acaso. Cada um abriga um tipo específico de alma, e cada tipo revela uma motivação distinta para a ação humana. Lidas em conjunto, formam uma escada exata das razões pelas quais um homem ou uma mulher se levanta de manhã para trabalhar.
Lua: o conforto
No primeiro céu, Dante encontra almas que quebraram votos por pressão alheia e não por convicção própria. A Lua é o astro da inconstância, aquele cujo rosto muda a cada noite sem nunca ser o mesmo duas vezes. É o céu certo para abrigar quem trabalha buscando conforto: um carro melhor, uma casa maior, uma folga mais longa.
O problema dessa motivação não é a busca em si, mas sua natureza cambiante. Sêneca já havia notado que o desejo por conforto material nunca se satisfaz, apenas se desloca para o próximo objeto. A casa dos sonhos, uma vez conquistada, revela vazamentos, vizinhos barulhentos, uma vista que já não impressiona. Trabalhar por conforto é trabalhar por uma miragem que recua na mesma velocidade em que se avança sobre ela.
Mercúrio: o dinheiro
No segundo céu está Justiniano, imperador que fez o bem, mas confessa a Dante que agiu, em parte, movido pela glória e pelo reconhecimento. Mercúrio, na mitologia que Dante herdou, é o deus do comércio, das trocas, das mensagens que vão e vêm sem nunca pousar. É um metal líquido, o mais volátil dos planetas visíveis.
O dinheiro tem a mesma natureza. Ele muda de mãos com uma facilidade que nenhuma outra forma de valor possui. Poucas famílias sustentam riqueza por cinco gerações, porque o dinheiro não obedece à vontade de quem o possui, obedece às condições de mercado, à sorte, à disciplina de terceiros que virão depois. Trabalhar tendo o dinheiro como mola propulsora é depender de algo que trai por natureza.
Vênus: a profissão
No terceiro céu habitam os que amaram intensamente. Vênus é o planeta do apego, do vínculo que se forma entre a alma e aquilo que ela ama, às vezes de forma tão completa que se torna difícil distinguir onde termina o amor e começa a identidade.
É exatamente essa a relação de muitos profissionais com seu ofício. Existe nobreza nesse apego, mas também um risco: quem ama a profissão confunde o meio com o fim, e resiste à mudança quando ela se torna necessária.
Sol: o negócio
No quarto céu brilham os sábios. O Sol ilumina sem se apagar, é a fonte que permite ver todas as outras coisas com clareza. É o céu da sabedoria aplicada, do conhecimento que se organiza em forma útil.
Montar um negócio é isso: pegar uma habilidade que se ama exercer e organizá-la de modo a gerar receita de forma sustentável. Aristóteles, na Ética a Nicômaco, descreve a phronesis, a sabedoria prática, como a virtude que permite aplicar o conhecimento correto à situação correta no momento correto. Montar um negócio é phronesis em ação: não basta saber fazer algo bem, é preciso saber organizá-lo para que continue sendo feito bem, por outros, em escala, sem depender apenas da presença constante de quem o criou.
Marte: o empreendimento
No quinto céu está um guerreiro que morreu em cruzada. Marte é o planeta vermelho, associado ao risco calculado, ao combate, à disposição de avançar mesmo sabendo que a derrota é possível.
Empreender é diferente de montar um negócio, é mais amplo, menos restrito a uma solução específica. Examinar pulmões é um negócio. Buscar, para além dos pulmões, soluções para problemas cada vez mais complexos, é empreender. Quem empreende de verdade convive com o risco sem viver ansioso por causa dele, conhece as chances contrárias e ainda assim avança, porque precisa desse tipo de problema para se sentir vivo. Marco Aurélio escreveu que o obstáculo no caminho se torna o caminho. É a descrição mais precisa que existe do temperamento empreendedor: o problema não interrompe o movimento, é o combustível dele.
Júpiter: a liderança
No sexto céu, as almas dos governantes justos formam, em conjunto, a figura de uma águia. Júpiter é o planeta do rei, da justiça distribuída, do poder que existe para ordenar o bem comum e não para servir a quem o exerce.
Liderar como motivação principal para trabalhar é acordar pensando em como desenvolver virtude nos outros, é uma obsessão genuína pelo crescimento alheio, não pelo próprio. Confúcio insiste repetidas vezes que o governante virtuoso é aquele cuja retidão pessoal se propaga a todos ao redor sem precisar de coerção. É a motivação mais generosa entre as sete, porque desloca o centro de gravidade do próprio sujeito para o outro.
Saturno: a vocação
No sétimo e último céu planetário moram os contemplativos, subindo e descendo por uma escada dourada que se perde de vista. Saturno é o mais lento dos planetas visíveis, o mais distante, o que exige o olhar mais paciente para ser notado.
A vocação é essa motivação mais distante e mais lenta de todas. Trabalhar por vocação é trabalhar porque existe a convicção de um chamado, o exercício pleno da própria humanidade, algo que ultrapassa o indivíduo e se conecta a um motivo transcendente. Nietzsche, em Assim Falou Zaratustra, fala do homem que se supera constantemente, que não trabalha para chegar a um lugar de descanso, mas para continuar se tornando. É a descrição mais próxima que existe de quem vive por vocação: o trabalho não é meio para outra coisa, é a própria forma de existir plenamente.
Dante organizou seu Paraíso em ordem crescente de perfeição, e não é coincidência que a jornada comece na Lua inconstante e termine em Saturno contemplativo. As duas primeiras motivações, conforto e dinheiro, giram inteiramente em torno de quem trabalha. A profissão começa a abrir uma fresta para fora de si, mas ainda prende pelo apego. O negócio e o empreendimento já pedem estrutura e coragem. A liderança já não é mais sobre quem lidera. E a vocação, no topo da escada, é onde o trabalho deixa de ser instrumento de qualquer coisa e passa a ser a própria expressão de um propósito que ultrapassa quem o exerce.
Setecentos e dez anos depois, a pergunta que Dante fez ao subir pelos céus continua sendo a mesma que qualquer pessoa deveria se fazer antes de assumir um cargo, abrir uma empresa ou aceitar liderar uma equipe: qual planeta ilumina o meu trabalho hoje, e para qual eu ainda preciso subir.
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