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Para onde apontar a atenção coletiva quando falamos do sofrimento humano?

A nossa geração escolheu apontar para o colapso. Fala-se de burnout como se fosse clima, algo que paira sobre todos igualmente e contra o qual só resta se proteger. Fala-se de TDAH

A nossa geração escolheu apontar para o colapso. Fala-se de burnout como se fosse clima, algo que paira sobre todos igualmente e contra o qual só resta se proteger. Fala-se de TDAH, de espectro autista, de trauma, de ansiedade, com uma fluência que há vinte anos pertencia apenas a manuais clínicos e hoje habita conversas de elevador. Isso não é neutro. É um deslocamento de foco, e deslocamentos de foco têm consequências mensuráveis sobre como as pessoas vivem.

Há um fenômeno estudado pelo psicólogo australiano Nick Haslam, da Universidade de Melbourne, chamado concept creep, a expansão gradual do significado dos conceitos ligados a dano. Haslam mostrou que termos como abuso, trauma, bullying e transtorno mental se alargaram em duas direções ao longo das últimas décadas: horizontalmente, passando a nomear fenômenos qualitativamente novos, e verticalmente, passando a nomear versões cada vez menos extremas do mesmo fenômeno. O trauma que antes descrevia sobreviventes de guerra hoje descreve também um comentário deselegante em uma reunião. Isso não significa que o sofrimento contemporâneo seja falso. Significa que a linguagem do dano se tornou o vocabulário-padrão para narrar a própria vida, mesmo quando outras linguagens, como a do propósito, do sentido, da direção, explicariam melhor o que está de fato acontecendo.

Essa migração de vocabulário tem um vetor concreto: as redes sociais. Uma revisão da Universidade de East Anglia analisou mais de cinco mil postagens sobre saúde mental no TikTok, YouTube, Instagram e X, e encontrou que mais da metade dos vídeos populares sobre TDAH continha alegações imprecisas ou sem respaldo científico. Um levantamento citado pelo Petrie-Flom Center de Harvard mostrou algo ainda mais revelador: um em cada quatro adultos hoje suspeita ter TDAH, quando a prevalência real estimada da condição gira em torno de seis por cento da população. A distância entre essas duas cifras não é um detalhe estatístico. É o retrato de uma cultura inteira aprendendo a se autodescrever pela patologia antes de aprender a se autodescrever pela intenção.

O problema não é que essas condições existam. TDAH, autismo, trauma e burnout são realidades clínicas legítimas, e nomeá-las corretamente já salvou vidas ao permitir diagnóstico e tratamento adequados. O problema é o que se perde quando a patologia se torna o único idioma disponível para explicar o desconforto de viver. Uma pessoa cansada deixa de perguntar qual é a direção que está perseguindo e passa a perguntar qual é o rótulo que a descreve. A pergunta muda de "para onde estou indo" para "o que há de errado comigo", e essa é uma troca que empobrece a capacidade de agir, porque rótulos descrevem estados, e propósito descreve movimento.

A ciência que estuda o outro lado dessa equação, o propósito, é mais robusta do que a intuição sugere. O estudo mais citado nesse campo vem do MIDUS: pessoas com maior senso de propósito viveram mais ao longo de catorze anos de acompanhamento, mesmo quando os pesquisadores controlaram outros marcadores de bem-estar psicológico e afetivo. Isto é, o propósito não é apenas um sintoma de estar bem. Ele opera como causa própria. Um estudo publicado no Lancet acompanhou mais de nove mil ingleses ao longo de oito anos e meio e constatou que os participantes com maior bem-estar ligado a sentido e direção tinham trinta por cento menos chance de morrer no período. O propósito não é decoração motivacional. É uma variável biológica.

Aristóteles chamava essa forma de bem-estar de eudaimonia, e fazia questão de distingui-la do prazer imediato. Para ele, a vida boa não era a soma de momentos agradáveis, mas o exercício contínuo da virtude em direção a um fim que a pessoa reconhecia como seu. Sêneca escreveria séculos depois que nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto se dirige, uma frase que hoje soa quase como diagnóstico clínico: a ausência de direção não é apenas desconforto existencial, é o que impede o organismo inteiro de organizar seu próprio esforço. Viktor Frankl viveu isso nos campos de concentração e depois formalizou na logoterapia: entre os prisioneiros que sobreviviam, o fator mais consistente não era a força física, mas a existência de um sentido a perseguir, uma pessoa a reencontrar, uma obra a terminar.

Nada disso nega o sofrimento real. Nega apenas que o sofrimento seja a categoria mais explicativa disponível para a experiência humana neste momento. A cultura que fala compulsivamente de exaustão e quase nada de direção está, sem perceber, escolhendo qual das duas forças alimentar. Toda vez que se nomeia o colapso sem nomear o que sustenta contra ele, oferece-se à pessoa metade de uma teoria. E metade de uma teoria, aplicada à própria vida, produz exatamente o efeito que se via tentando evitar: mais gente convencida de que está quebrada, e menos gente convencida de que tem um lugar para ir.