A jornada não é solitária. Isso é só um bom discurso de vendas.
Praticamente todo evento de empreendedorismo abre com a mesma frase, a jornada é solitária, ninguém entende o que você carrega, você está sozinho nessa. É um discurso eficiente, porque cria o problema exato que o próprio evento promete resolver depois, na palestra seguinte, vendendo pertencimento como remédio para uma doença que ele mesmo diagnosticou minutos antes. Funciona bem comercialmente. Funciona mal como descrição da realidade, e funciona ainda pior como retrato do que de fato é um ser humano.
Aristóteles resolveu essa questão há mais de dois mil anos com uma definição que continua sendo, provavelmente, a mais repetida da história da filosofia política. O homem é um animal social por natureza, e quem consegue viver isolado da sociedade, sem precisar dela, só pode ser besta ou deus, nunca um ser humano comum. Não existe, na tradição filosófica mais sólida que existe sobre o assunto, espaço para a ideia de que o estado natural humano seja a solidão. Existe, sim, espaço generoso para reconhecer que certos momentos específicos exigem isolamento temporário e deliberado, o que é uma coisa completamente diferente de viver uma jornada inteira sozinho como se isso fosse condição inevitável de quem empreende.
A confusão entre essas duas coisas é o que sustenta o discurso de vendas. Existe uma verdade real escondida dentro da mentira comercial, a de que pensar com clareza exige, sim, silêncio e distância temporária do ruído social. Marco Aurélio governava o maior império do mundo conhecido rodeado de gente o dia inteiro, e ainda assim reservava um momento diário de isolamento deliberado para revisar a própria conduta por escrito, sem plateia nenhuma assistindo. Esse tipo de solidão é ferramenta, usada com hora marcada, para pensar melhor antes de voltar para o convívio. É radicalmente diferente de andar pela vida inteira sem ninguém para testar uma decisão, questionar um ponto cego ou apontar um erro que só se enxerga de fora.
E é exatamente aqui que a pesquisa recente contraria de frente o mito da jornada solitária como virtude. Estudo conduzido pela consultoria RHR International em parceria com pesquisadores de Stanford, ouvindo centenas de executivos de alto escalão, encontrou que boa parte deles relatava sentir isolamento significativo no cargo, e que esse isolamento estava associado a pior desempenho, não a mais lucidez. Fundador sem ninguém para desafiar a própria ideia não vira gênio solitário. Vira ponto cego ambulante, cercado de gente que só concorda, tomando decisão cada vez pior à medida que perde qualquer referência externa capaz de corrigir o próprio rumo.
O verdadeiro trabalho de quem empreende nunca foi escolher entre solidão e comunidade como se fossem inimigas. Foi aprender a alternar entre as duas com intenção clara. Recolher-se por um tempo, pensar sem interferência, decidir com a cabeça limpa, e depois voltar para perto de gente que testa essa decisão, aponta o furo que não foi visto de dentro, e devolve o tipo de atrito que só existe em relação real, nunca em isolamento prolongado. Comunidade nunca deveria ser vendida como cura de uma solidão inventada para justificar a venda de um ingresso. Deveria ser reconhecida como aquilo que qualquer ser humano, por natureza, precisa para viver bem, e como o único mecanismo real capaz de corrigir a cegueira que a própria cabeça, sozinha, jamais enxerga sobre si mesma.
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