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O dia em que todo fundador precisa deixar de ser fundador

Existe uma fase, na vida de qualquer empresa que dá certo, em que o fundador precisa parar de ser celebrado como fundador e passar a ser cobrado como CEO. Poucas transições doem ta

Existe uma fase, na vida de qualquer empresa que dá certo, em que o fundador precisa parar de ser celebrado como fundador e passar a ser cobrado como CEO. Poucas transições doem tanto quanto essa, porque ela não pede apenas nova habilidade. Pede luto de uma identidade que funcionou bem o suficiente para trazer a empresa até ali, e que, exatamente por isso, é difícil de abandonar.

No início, toda empresa nasce quase sempre da força pessoal de alguém. Antes de existir processo, existe convicção. Antes de existir marca, existe reputação pessoal emprestada ao negócio. Antes de existir produto maduro, existe o fundador colocando o próprio nome, a própria energia e a própria presença física para fazer aquilo sair do papel. Essa fase carrega beleza real e perigo real ao mesmo tempo, porque tudo que nasce de proximidade tende, se não for amadurecido a tempo, a virar confusão. O cliente confunde acesso ao fundador com intimidade genuína, o próprio fundador confunde impacto gerado com dívida emocional que os outros lhe devem, e a comunidade em volta confunde pertencimento com direito adquirido sobre o rumo do negócio.

O pesquisador de Harvard Larry Greiner descreveu esse fenômeno com precisão acadêmica em 1972, num artigo que se tornou referência obrigatória em qualquer escola de administração séria. Ele mapeou que toda organização em crescimento atravessa fases de evolução relativamente estável, cada uma interrompida por uma crise específica que só se resolve com uma mudança estrutural de gestão. A primeira dessas crises é justamente a crise de liderança, o momento em que o estilo pessoal e improvisado que levou a empresa a nascer se torna, de repente, o mesmo estilo que impede a empresa de crescer além de certo tamanho. Décadas depois, o professor Noam Wasserman, também de Harvard, quantificou o tamanho real dessa transição num estudo que acompanhou centenas de startups, e encontrou que a maioria dos fundadores perde o cargo de CEO muito antes de a empresa amadurecer por completo.

O fundador que ainda não fez essa travessia espera gratidão do mercado. O CEO que já fez espera resultado. Gratidão é sentimento humano legítimo, mas nunca deveria ocupar o centro de uma relação comercial séria. Cliente não deveria continuar comprando porque gosta pessoalmente de quem fundou a empresa, deveria continuar porque o produto entrega valor mensurável, comprar mais porque percebe crescimento real, indicar porque enxerga resultado concreto, permanecer porque o serviço resolve uma dor que sozinho não conseguiria resolver.

Toda empresa que cresce, mais cedo ou mais tarde, enfrenta a nostalgia dos primeiros clientes, dos primeiros membros, dos primeiros admiradores, gente que vai lembrar com carinho genuíno da época em que tudo era menor, mais informal, mais próximo do fundador em pessoa. A obrigação de uma empresa saudável nunca foi permanecer pequena para preservar o conforto emocional de quem chegou primeiro. Foi sempre evoluir para servir cada vez melhor um mercado que também está mudando ao redor dela. Fundador cria o fogo inicial, CEO constrói a fornalha que sustenta esse fogo por décadas. Fundador abre o caminho na mata fechada, CEO transforma esse caminho estreito em estrada capaz de suportar tráfego pesado todos os dias.

Tornar-se CEO da própria empresa exige ganhar estrutura onde antes bastava carisma, e liderar pela responsabilidade de entregar em vez de liderar pela necessidade pessoal de ser reconhecido a cada decisão. Existe um manual prático relativamente simples para atravessar essa transição. O primeiro passo é separar, por escrito, quais métricas media o sucesso do fundador das métricas que devem medir o sucesso do CEO. O segundo é transformar em processo documentado tudo que hoje só existe na cabeça do fundador. O terceiro é montar uma segunda camada real de liderança, com autoridade de decisão de fato delegada. O quarto é escrever, com clareza, quem decide o quê dentro da empresa. O quinto, talvez o mais difícil de todos, é aprender a ouvir o ressentimento de quem sente saudade da fase antiga sem deixar que esse ressentimento redesenhe a direção estratégica da empresa.