A dor e o dom
Ao longo de quase vinte anos empreendendo, tive a oportunidade de conhecer pessoas que mudaram o rumo da minha vida. Com o tempo, ficou cada vez mais claro um padrão que se repete em praticamente todo mundo que já cruzou meu caminho, todo mundo carrega uma dor, e todo mundo carrega um dom. Ou seja, todo mundo é capaz de gerar valor real, e todo mundo tem alguma coisa para aprender e alguma coisa para ensinar. Ter consciência da própria dor faz crescer nos negócios. Usar o próprio dom para transbordar sobre quem ainda vive essa mesma dor multiplica esse crescimento de um jeito que nenhuma estratégia isolada consegue igualar.
O psiquiatra suíço Carl Jung descreveu um arquétipo que chamou de curador ferido, a ideia de que a capacidade genuína de ajudar alguém a atravessar uma dor específica nasce, com frequência, de já ter atravessado essa mesma dor pessoalmente. Não é coincidência que tanto terapeuta excepcional carregue uma história pessoal de sofrimento processado, nem que tanto empreendedor excepcional tenha fundado a própria empresa resolvendo exatamente o problema que mais o atormentava antes de existir solução para ele. A ferida, quando enfrentada e compreendida, deixa de ser apenas uma limitação pessoal e passa a funcionar como instrumento de precisão, ninguém enxerga os detalhes de um problema com mais clareza do que quem já viveu esse problema na própria pele.
Sara Blakely trabalhava vendendo fax de porta em porta quando enfrentou um problema pequeno e absurdamente específico, não conseguia encontrar uma roupa íntima que não marcasse debaixo de uma calça branca. A solução que ela mesma inventou, cortando o pé de uma meia calça com uma tesoura, virou a Spanx, hoje avaliada em mais de um bilhão de dólares. Blakely não tinha experiência em moda, varejo ou gestão, e foi recusada por praticamente todo fabricante de meia com quem tentou conversar no início. O que ela tinha era a dor específica, vivida na própria pele, e o dom de resolver aquilo de um jeito simples o suficiente para que milhões de outras mulheres, carregando exatamente a mesma dor, reconhecessem a solução na hora em que a viram. Nenhuma pesquisa de mercado sofisticada chegaria àquela ideia tão rápido quanto uma dor pessoal genuína chegou.
Os psicólogos Richard Tedeschi e Lawrence Calhoun cunharam, na década de noventa, o termo crescimento pós-traumático, para descrever algo que a psicologia clínica até então mal documentava, o fato de que atravessar uma adversidade significativa, quando processada com reflexão e não apenas sofrida em silêncio, pode gerar força nova, relacionamento mais profundo e senso de propósito mais nítido do que a pessoa tinha antes da própria dor acontecer. Isso não significa que dor seja desejável, nem que sofrimento deva ser buscado de propósito. Significa que a dor já vivida, quando processada em vez de apenas enterrada, deixa de ser só perda e passa a carregar um tipo de capital que ninguém consegue adquirir de outra forma, nem estudando, nem copiando, nem contratando consultoria nenhuma.
O psicólogo Adam Grant, da Wharton, passou anos estudando o comportamento de quem ele chama de doadores, pessoas que ajudam os outros a crescer sem cobrar retorno imediato por isso. O achado mais citado da pesquisa dele é que doadores, no longo prazo, tendem a alcançar os resultados mais altos de qualquer grupo estudado. Mas existe uma parte da pesquisa que raramente aparece junto com essa conclusão, e que merece ser dita com a mesma honestidade, os doadores também ocupam a posição mais baixa de desempenho, entre todos os perfis estudados. A diferença entre o doador que vence e o doador que se esgota é sutil, mas decisiva, quem doa sem nenhum limite, ignorando a própria necessidade, tende a se esgotar e cair para o fundo da distribuição. Quem doa generosamente e, ao mesmo tempo, continua protegendo o próprio tempo, energia e interesse, o que Grant chama de doador esperto, tende a subir para o topo. Transbordar o próprio dom sobre a dor alheia multiplica o crescimento, mas só continua multiplicando enquanto quem doa não se esvazia por completo no processo.
Todo mundo quer extrair. Pouca gente quer se entregar e doar, exatamente porque doar de verdade exige primeiro admitir a própria dor, o que a maioria evita fazer, e depois oferecer o próprio dom sem garantia nenhuma de retorno imediato, o que exige um tipo de coragem que extrair nunca vai exigir. Quem consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo, reconhecer a própria ferida com honestidade e oferecer o próprio dom com generosidade sustentável, não sofisticada, apenas honesta, geralmente descobre que o crescimento que vem depois não é sorte. É consequência direta de ter finalmente parado de só extrair.
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