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A dúvida que aparece exatamente quando você está ficando bom

Quanto mais você aprende, mais dúvida aparece, não menos. Isso não é fraqueza: é o sinal mais confiável de que você está finalmente enxergando o tamanho real do problema.

Existe um momento estranho, que quase todo mundo atravessa mais de uma vez na vida, em que aprender mais sobre o próprio ofício produz menos confiança, não mais. No começo de qualquer coisa nova, a confiança costuma vir fácil, porque ainda não existe repertório suficiente para perceber tudo que pode dar errado. Depois de meses ou anos de aprofundamento real, a mesma pessoa que começou animada e segura passa a hesitar mais, a questionar mais a própria decisão, a enxergar risco onde antes só via oportunidade. A reação comum é interpretar essa dúvida crescente como sinal de que algo piorou, mas garanto que vale a pena desconfiar dessa interpretação.

O núcleo desse padrão explica algo que muita gente competente sente sem conseguir nomear direito. Quanto mais alguém aprofunda um assunto de verdade, mais visível fica a complexidade que antes passava despercebida, e essa visão mais completa tende a reduzir a confiança simples de quem sabia pouco o suficiente para não perceber o próprio limite. Isso significa que o momento em que alguém está realmente ficando bom em algo, seja gestão, uma nova habilidade dentro do próprio negócio, costuma vir acompanhado de mais dúvida, não de menos, exatamente o oposto do que a intuição sugere. Confundir esse desconforto com prova de fracasso é um erro caro, porque é justamente nesse ponto que muita gente desiste, interpretando a própria dúvida crescente como sinal de que estava no caminho errado, quando na verdade é sinal de que finalmente está enxergando o tamanho real do problema.

Existe um jeito de verificar se esse desconforto crescente realmente condena alguém a uma vida pior no longo prazo, ou se é só uma fase passageira dentro de um processo mais longo. O estudo mais longo já realizado em psicologia responde a essa pergunta com dado real. A partir de 1921, o pesquisador de Stanford Lewis Terman passou a acompanhar mais de mil e quinhentas crianças de inteligência muito acima da média, e manteve esse acompanhamento, através de sucessivos pesquisadores, por mais de cem anos. Os resultados mostraram que essas pessoas, ao longo da vida inteira, foram, em média, mais saudáveis, mais bem ajustadas socialmente, mais bem-sucedidas profissionalmente e viveram cerca de dez anos a mais do que a população geral. Continuar aprofundando conhecimento e visão de mundo não as condenou a nada parecido com sofrimento permanente. O aprofundamento que inicialmente custa confiança confortável parece, no longo prazo, pagar de volta com folga.

Phil Knight, fundador da Nike, descreveu na própria autobiografia, lançada décadas depois do sucesso da empresa, que os primeiros vinte anos de existência da companhia foram marcados por medo quase constante de falência. Quanto mais ele entendia o próprio negócio, a relação instável com o fornecedor japonês, a exigência de pagar adiantado por sapato que ainda nem tinha sido vendido, mais claro ficava o tamanho real do risco que estava correndo, e mais noites em claro ele descreveu ter passado, negociando empréstimo com banco, chegando a vender o próprio carro para manter a empresa viva. Knight não escondeu, ao escrever sobre isso já bilionário, que aquele período de maior sofrimento consciente foi também o período em que mais aprendeu sobre como o próprio negócio realmente funcionava. A empresa só abriu capital em 1980, depois de quase duas décadas inteiras vivendo à beira do colapso.

Um padrão parecido 4 décadas depois, em outro setor inteiramente diferente. Em 2018, Elon Musk passou meses dormindo no chão da fábrica da Tesla em Fremont, tentando destravar a produção do Model 3, um período que ele mesmo descreveu como o mais excruciante de toda a própria carreira. Musk já vinha alertando publicamente, desde o ano anterior, que a empresa entraria no que ele chamou de inferno de produção, e a experiência real acabou pior do que ele havia previsto. Foi exatamente durante essa fase de sofrimento mais agudo que Musk chegou a dizer, em entrevista, que finalmente sentia ter uma compreensão clara do caminho para sair daquele inferno, o entendimento mais profundo do problema chegando junto com o momento de maior desgaste pessoal, não depois dele. A Tesla saiu daquele período para se tornar, poucos anos depois, a montadora mais valiosa do mundo.

Nenhum dos dois casos é uma coincidência isolada. Os dois descrevem a mesma sequência, entendimento crescente do problema chegando lado a lado com sofrimento crescente, seguido de uma virada que só ficou possível depois que esse entendimento amadureceu por completo. Reconheço esse mesmo padrão na própria forma como penso. Penso demais, e por pensar demais acumulo dúvida. A dúvida me obriga a pensar ainda mais fundo, o pensamento me leva a dilema, e o dilema me força a fazer pergunta que eu preferiria, muitas vezes, não precisar fazer. Cada pergunta dessas expande um pouco mais a própria mente, e essa expansão vem sempre acompanhada de mais consciência sobre a complexidade real do que estou tentando construir. A diferença não é duvidar menos do que qualquer outra pessoa nessa mesma posição, é nunca deixar a dúvida virar desistência. Quebro a cabeça até achar o caminho, insisto além do ponto em que seria mais confortável parar, e sigo em frente cercado de dúvida, não apesar dela, mas justamente por reconhecer, nela, o mesmo sinal que Knight e Musk também reconheceram nas próprias histórias, o de estar enxergando fundo demais para recuar.

A próxima vez que uma dúvida nova aparecer justamente no momento em que você deveria estar se sentindo mais seguro, porque investiu tempo real aprendendo algo, vale lembrar desse padrão. Aquela dúvida não é evidência de que você piorou, é evidência de que você está enxergando complexidade que antes ficava invisível, o mesmo tipo de visão que separa quem realmente domina um assunto de quem só acha que domina. O caminho certo, segundo os próprios dados de longo prazo disponíveis, não é recuar para a confiança confortável de antes. É atravessar esse trecho difícil, porque do outro lado dele, historicamente, mora gente mais preparada, não mais infeliz.

Eu fecho com uma passagem bíblica que amo e levo pra vida: Eclesiastes 1:18 diz: Quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento; quanto maior o conhecimento, maior a frustração.