As lições de negócio mais antigas do mundo estão na Odisseia
A Odisseia tem quase três mil anos e ainda é o manual de gestão mais honesto que eu já li. Não estou brincando. Deixa eu te mostrar cinco momentos desse poema que qualquer empresário consegue usar já na próxima segunda-feira.
Antes de existir qualquer livro de gestão, qualquer curso de liderança ou qualquer palestra de empreendedorismo, já existia a Odisseia. Um poema de quase três mil anos que, lido com atenção, funciona como um manual de sobrevivência para qualquer pessoa tentando construir algo grande em meio a tempestade, tentação, decisão difícil e gente ao redor que nem sempre ajuda. Vou tratar aqui de cinco momentos específicos do poema, cada um com uma lição que qualquer empresário consegue aplicar sem precisar reler Homero inteiro para entender.
Os gregos tinham uma palavra específica para o objetivo real de Odisseu, nostos, o retorno. Não a conquista de Troia, que já tinha acontecido antes do poema começar. O retorno para casa, inteiro, com alguma coisa que valesse a pena para quem ficou esperando. Isso muda completamente o critério de sucesso da história inteira. Um herói que nunca volta, que fica preso em conquista atrás de conquista sem nunca fechar o ciclo, não terminou coisa nenhuma, só está no meio de uma jornada infinita.
O empresário costuma medir sucesso pelo tamanho da próxima conquista, o próximo contrato, a próxima filial, o próximo recorde de faturamento. Mas sucesso sem retorno não é sucesso, é apenas movimento constante. A pergunta que vale fazer de tempos em tempos não é o que mais posso conquistar, é o que estou fazendo com o que já conquistei, e para quem estou realmente voltando no fim de cada ciclo. Negócio que nunca entrega retorno, para o próprio dono, para a família, para quem construiu junto, só está repetindo Troia indefinidamente.
Quando o navio de Odisseu se aproxima da ilha das sereias, ele sabe, de antemão, que o próprio canto delas é capaz de fazer qualquer homem perder o juízo e guiar o navio direto para as pedras. A solução dele não é confiar na própria força de vontade na hora certa. É se amarrar ao mastro antes de ouvir a primeira nota, e tapar os ouvidos da tripulação com cera, para que ninguém precise testar a própria disciplina no calor do momento.
Esse é, provavelmente, o conselho de gestão mais subestimado que existe. Decisão importante não deveria depender de força de vontade no momento da tentação, porque força de vontade, sob pressão, quase sempre perde. O empresário sério toma a decisão difícil antes, em momento de clareza, e constrói regra, contrato, processo ou conselho que o impeça de mudar de ideia justamente na hora em que estiver mais vulnerável a mudar. Definir com antecedência quanto caixa nunca será tocado, que tipo de sócio nunca será aceito, que limite de endividamento nunca será ultrapassado, é o equivalente moderno de se amarrar ao mastro antes de escutar a sereia cantar.
Depois de cegar o ciclope Polifemo e escapar da caverna com o que restou da tripulação, Odisseu já estava livre, em segurança, no próprio navio. Bastava seguir viagem calado. Em vez disso, ele grita o próprio nome verdadeiro para o ciclope, incapaz de resistir à vontade de ser reconhecido pela própria vitória. O resultado foi caro, Polifemo, agora sabendo exatamente quem o cegou, pede vingança ao próprio pai, Poseidon, senhor dos mares, que passa o resto do poema perseguindo Odisseu e atrasando o retorno dele em anos.
Toda empresa enfrenta o próprio ciclope de vez em quando, o concorrente derrotado, o processo vencido, o cliente difícil finalmente resolvido. A tentação, depois de uma vitória dessas, é sempre a mesma, fazer questão de que todo mundo saiba quem venceu. Só que anunciar a própria vitória com o nome gritado ao vento tem um custo que raramente aparece na hora, cria inimigo desnecessário, fecha porta que ainda poderia ser útil no futuro, transforma um problema já resolvido num problema novo e mais duradouro. Vencer em silêncio, sem precisar do reconhecimento imediato, quase sempre custa menos no longo prazo do que vencer gritando o próprio nome.
Antes da tempestade final que atrasa o retorno por anos, o deus Éolo entrega a Odisseu um saco fechado contendo todos os ventos contrários, deixando livre apenas o vento favorável que levaria o navio direto para casa. Odisseu guarda o saco, mas não explica à tripulação o que realmente está ali dentro. A poucos passos de Ítaca, com a costa já visível, os marinheiros, imaginando que o líder está escondendo um tesouro só para si, abrem o saco enquanto ele dorme. O resultado é o oposto do que temiam evitar, os ventos escapam de uma vez, e o navio é jogado de volta para longe de casa, exatamente quando a chegada parecia garantida.
Quantas empresas já perderam algo quase pronto por falta exatamente dessa transparência. Líder que guarda informação importante da própria equipe, mesmo com boa intenção, corre o risco de que a equipe preencha esse vazio com a pior suposição possível, e aja sobre essa suposição errada bem na hora mais delicada do projeto. Explicar o porquê de uma decisão, mesmo quando parece mais rápido simplesmente pedir confiança cega, costuma ser mais barato do que lidar com o estrago de uma equipe que decidiu abrir o saco sozinha, sem entender o que realmente estava guardado ali.
O poema termina com um teste concreto, literal. De volta em casa, disfarçado, sem que ninguém o reconheça, Odisseu observa dezenas de pretendentes tentando fazer uma única coisa, esticar o próprio arco dele e disparar uma flecha através de doze machados enfileirados. Um por um, todos falham, porque nenhum deles tem a força e a técnica que só anos de uso real daquele arco específico conseguem construir. Só o próprio Odisseu, quando finalmente pega o arco nas mãos, consegue esticá-lo sem esforço aparente e acertar o tiro.
Member discussion