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Thomas Edison era mesmo um gênio?

A resposta honesta é não, pelo menos não do jeito que a história conta. E entender isso desmonta um dos mitos mais caros do empreendedorismo.

A resposta curta é não, pelo menos não do jeito que a história costuma contar. E entender por que ajuda a desmontar um dos mitos mais caros que existem no mundo dos negócios, o mito de que sucesso extraordinário nasce de um talento raro que algumas pessoas simplesmente têm e a maioria não tem.

Edison é lembrado como o homem sozinho, de madrugada, tendo o estalo que deu ao mundo a lâmpada elétrica. A realidade documentada é bem diferente. No laboratório de Menlo Park, Edison comandava uma equipe de cerca de catorze engenheiros, mecânicos e físicos, que os próprios integrantes apelidaram de muckers, e que trabalhavam em conjunto, morando literalmente no andar de cima do mesmo galpão onde inventavam. Anos depois, na sede maior de West Orange, esse time já passava de duzentas pessoas, responsável por boa parte das mais de mil patentes registradas em nome de Edison ao longo da vida dele. E a lâmpada incandescente em si nem foi ideia original dele, ele foi, dependendo de como se conta, o vigésimo segundo ou vigésimo terceiro inventor a tentar resolver aquele problema, depois de nomes como Humphry Davy, Marcellin Jobard e Joseph Swan, que já tinham demonstrado princípios parecidos décadas antes. O que Edison e o time dele realmente resolveram foi um problema de engenharia e de negócio, um filamento de bambu carbonizado que durava mais de mil horas acesas, e um sistema completo de geração e distribuição elétrica que tornava aquilo tudo comercialmente viável em escala.

O próprio Edison, de um jeito curioso, ajudou a desmentir o próprio mito, ao repetir a frase que se tornou famosa, genialidade é um por cento inspiração e noventa e nove por cento transpiração. Ironicamente, a imagem de gênio solitário que ele próprio cultivou para a imprensa da época esconde justamente aquilo que foi seu verdadeiro feito, não uma centelha individual de inspiração, mas a criação de um sistema replicável de pesquisa, teste, patente e comercialização, o primeiro laboratório de pesquisa industrial da história.

Edison não é caso isolado. O mundo dos negócios adora simplificar conquista coletiva em conquista de uma pessoa só, porque a narrativa de um único gênio vende mais fácil do que a realidade mais chata de um time inteiro de gente competente trabalhando junto durante anos. Boa parte das empresas que hoje carregam o nome de um fundador carismático como sinônimo de genialidade solitária também dependeram, de forma decisiva, de sócios técnicos, times de engenharia e áreas inteiras de operação que raramente aparecem na capa da revista. Isso não diminui o mérito de quem lidera. Só coloca esse mérito no lugar certo, organizar, decidir e comunicar bem, mais do que ter sozinho o único estalo que ninguém mais teria.

Por muito tempo, existiu o mito do gênio nato, a ideia de que desempenho extraordinário nasce pronto dentro de algumas pessoas. A psicologia cognitiva contemporânea desenha um quadro bem mais interessante do que esse. O pesquisador Anders Ericsson dedicou a carreira a estudar como se forma desempenho de elite em música, xadrez, esporte e outras áreas de alta exigência, e concluiu que prática deliberada, ambiente adequado, oportunidade concreta e feedback constante pesam mais do que qualquer talento inato isolado. Vale uma ressalva importante aqui, o próprio Ericsson criticou publicamente a versão simplificada da própria pesquisa que ficou popular depois, a ideia de que bastam dez mil horas de prática para qualquer pessoa virar especialista de elite em qualquer coisa. Não é a quantidade bruta de hora que produz excelência, é a qualidade da prática, estruturada, com objetivo específico e correção constante de erro, dentro de um ambiente que oferece oportunidade real de evoluir. Sem esse ambiente, mil horas de prática mal orientada rendem muito menos do que cem horas de prática bem estruturada.

Existe uma crença antiga de escola, o nerd estudioso parecia destinado ao sucesso, mas quem realmente construiu fortuna foi a turma do fundo da sala. Isso não é só folclore de recreio, existe pesquisa séria sobre o assunto. A psicóloga Karen Arnold acompanhou, ao longo de mais de uma década, oitenta e um alunos que tinham sido os primeiros colocados de suas respectivas turmas no ensino médio americano. O resultado foi revelador, praticamente todos construíram carreira sólida e estável, cerca de noventa por cento em profissões de prestígio, mas nenhum deles se tornou o tipo de visionário que muda de fato uma indústria inteira. Outro levantamento, com setecentos milionários americanos, encontrou uma média de nota na faculdade de apenas 2,9, longe de qualquer excelência acadêmica.

A explicação não é que aluno aplicado seja menos inteligente, é que a escola tradicional recompensa consistentemente quem segue regra, entrega o que o professor espera e evita risco. Já o tipo de sucesso que muda um mercado inteiro normalmente exige exatamente o oposto, tolerância a risco, disposição para quebrar regra estabelecida, conforto em navegar um caminho sem manual pronto. A mesma disciplina que rende nota alta na prova pode, mais tarde, virar excesso de cautela na hora de apostar numa ideia sem garantia nenhuma de dar certo. Isso não significa que estudar seja perda de tempo, significa que o conjunto de habilidades que forma um excelente aluno e o conjunto de habilidades que forma um excelente empreendedor se sobrepõem bem menos do que a gente imagina na escola.

Se você está esperando um estalo de genialidade que ainda não chegou, talvez esteja esperando a coisa errada. Nem Edison esperou, ele montou um time, criou um processo repetível de tentativa e correção, e vendeu ao mundo a história de um gênio solitário porque essa história vendia melhor do que a verdade mais trabalhosa por trás dela. Excelência de verdade se parece muito mais com prática bem estruturada, ambiente que oferece oportunidade real e disposição para arriscar fora do manual, do que com dom raro reservado para poucos escolhidos. Se você foi o aluno do fundão que a escola nunca soube o que fazer com você, isso talvez explique menos do que você imagina sobre seus limites, e mais do que você imagina sobre seu potencial.