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Telêmaco esperando o pai

A Odisseia não é só a história de um herói tentando voltar. É a história de um filho crescendo sem pai enquanto o pai está ocupado construindo algo grande longe dali.

Reli a Odisseia há pouco tempo e o que mais me surpreendeu não foi a parte do herói. Foi a história do filho dele, Telêmaco, crescendo praticamente sem pai enquanto o pai estava ocupado construindo algo grande lá fora.

A pergunta certa não é se a Odisseia tem relação com pai, é perceber que a Odisseia inteira só existe por causa disso. Homero não escreveu apenas a história de um homem tentando voltar para casa depois de uma guerra. Escreveu, antes de tudo, a história de um filho crescendo sem pai enquanto esse pai estava ocupado demais construindo algo grande longe dali.

Quando o poema começa, Odisseu já está fora de casa há vinte anos, dez lutando em Troia, dez tentando voltar sem conseguir. Enquanto isso, o filho dele, Telêmaco, cresce em Ítaca praticamente sozinho, cercado de pretendentes que tomam conta da própria casa, gastam os recursos da família e tratam o menino como se ele nunca fosse virar homem de verdade. Os primeiros quatro cantos do poema, que os estudiosos chamam de Telemaquia, nem tratam de Odisseu diretamente. Tratam do filho tentando entender quem é o pai que ele mal conheceu, e tentando descobrir sozinho como se tornar um homem sem ter a quem imitar de perto.

Existe um detalhe curioso escondido dentro dessa história que a maioria das pessoas usa todos os dias sem saber a origem. Como Odisseu não estava presente para guiar o próprio filho, a deusa Atena assume a forma de um velho amigo da família chamado Mentor para acompanhar Telêmaco, aconselhar, e ajudar o rapaz a amadurecer na ausência do pai. É dali que vem, literalmente, a palavra mentor, que usamos até hoje para descrever alguém que orienta outra pessoa quando o guia natural não está disponível. A própria língua guardou, sem perceber, a lembrança de que mentoria nasceu como remendo para a ausência de um pai, não como substituto voluntário dele.

A leitura que interessa aqui não é literal, é o padrão que ela revela. Troia pode ser qualquer projeto grande o suficiente para consumir um homem por completo, a empresa que está sendo construída do zero, a expansão que exige viagem constante, a obsessão saudável de tentar deixar algo maior do que a própria vida. Nada disso é condenável, o próprio poema trata a guerra de Troia como algo necessário, digno, heroico até. O problema nunca foi Odisseu ter ido lutar. O problema é que, enquanto ele lutava, a casa continuou existindo sem ele, e o filho precisou crescer preenchendo, como conseguia, o espaço que só um pai deveria ocupar.

Isso não é exagero poético aplicado a negócio moderno. Os números confirmam. Pesquisas do setor de empresas familiares mostram, de forma consistente, que apenas cerca de trinta por cento dos negócios familiares sobrevivem até a segunda geração, e só doze por cento chegam à terceira. A maior parte dessas quedas não acontece por falta de competência técnica do fundador, acontece porque a relação entre pai e filho nunca foi cuidada com a mesma disciplina que o negócio recebeu, e quando chega a hora da transição, existe empresa de sobra e vínculo de menos para sustentar a passagem de bastão.

Existe um ponto central na Odisseia que costuma passar despercebido, o verdadeiro objetivo de Odisseu do início ao fim nunca foi conquistar mais território, mais glória ou mais riqueza. Era voltar para casa. Os gregos tinham até uma palavra específica para isso, nostos, o retorno como o verdadeiro sentido da jornada heroica, não a conquista em si. Um herói que nunca volta, para os gregos, não completou história nenhuma, só ficou preso no meio dela. E quando Odisseu finalmente chega em Ítaca, disfarçado, sem ninguém reconhecê-lo, o momento mais importante do livro inteiro não é a vingança contra os pretendentes. É o instante em que ele se revela ao próprio filho, e os dois, pela primeira vez na vida de Telêmaco, lutam lado a lado pela mesma casa.

Esse é talvez o ensinamento mais direto que a história carrega para qualquer pai empresário. Construir algo grande fora de casa nunca foi o erro. O erro é adiar demais o retorno, tratar a volta como algo que pode esperar mais um ano, mais um projeto, mais uma conquista, até que o filho cresça sem nunca ter tido a chance de lutar ao lado do pai, só ao lado da ausência dele. O psicólogo Erik Erikson descreveu, décadas depois de Homero, o estágio adulto que ele chamou de generatividade, a necessidade humana de cuidar e orientar a geração seguinte, e alertou que a falha nesse estágio produz o oposto, um adulto que constrói coisas grandes fora de casa e um vazio pessoal dentro dela, porque o cuidado que deveria ter sido investido em gente foi investido inteiro em obra.

Telêmaco, no poema, nunca deixa de esperar o pai. Isso é ficção generosa com o leitor, porque na vida real filho não espera para sempre, ele cresce, se acostuma com a ausência, aprende a viver sem, e eventualmente para de guardar lugar para alguém que nunca chega. A lição prática por trás de tudo isso não é abandonar Troia, é lembrar, o tempo inteiro, que o motivo de estar em Troia sempre foi justamente poder voltar para casa depois, com alguma coisa que valha a pena colocar nas mãos do próprio filho, e ainda a tempo de lutar ao lado dele, não só de deixar herança para ele.