Quanto mais você evita o conflito, mais superficial você fica
Vou te contar uma das coisas mais contraintuitivas que aprendi sobre relacionamento, dentro e fora da empresa. Quanto mais você evita o conflito, mais rasa a relação fica.
A maioria dos empresários já sabe, pelo menos racionalmente, que é preciso dizer não de vez em quando. O problema nunca foi esse conhecimento, é a execução dele na hora certa, e o motivo por trás da dificuldade é mais interessante do que parece à primeira vista. Existe uma pergunta que raramente aparece nesse debate, e que talvez seja a mais importante de todas. Por que, afinal, as pessoas evitam tanto o conflito? E existe alguma relação real entre a quantidade de conflito que você encara numa relação e a profundidade que essa relação de fato alcança?
Existe uma teoria em psicologia social chamada teoria do sociômetro, desenvolvida pelo pesquisador Mark Leary, que trata a autoestima como um sensor interno que monitora, o tempo inteiro, o risco de sermos excluídos de um grupo. Esse sensor existe porque, durante praticamente toda a história evolutiva da nossa espécie, ficar de fora do grupo era, de forma literal, uma sentença de morte. Um estudo de 2003, publicado na revista Science por Naomi Eisenberger, Matthew Lieberman e Kipling Williams, mostrou até onde isso vai fundo, o cérebro de uma pessoa excluída de um simples jogo social ativa a mesma região que se ativa durante dor física real. Rejeição não é força de expressão para o cérebro, é dor de verdade, processada pelo mesmo circuito.
Aristóteles já havia descrito, na Ética a Nicômaco, o comportamento de quem evita esse desconforto a qualquer custo, chamando de obsequioso aquele que elogia tudo, nunca discorda e busca agradar sem nenhum outro motivo além do próprio agrado. E o estoico Epicteto foi além, ao afirmar que reputação e opinião alheia pertencem à categoria do que não está sob nosso poder, e que tratar isso como posse própria é uma forma de escravidão. Esse pano de fundo já explica bem por que evitar conflito parece, no corpo e na mente, uma questão de sobrevivência. Mas ele não responde à pergunta mais importante, que é o que essa fuga do conflito realmente custa para o vínculo que está sendo protegido.
O psicólogo John Gottman passou décadas observando casais em laboratório, medindo expressão facial, batimento cardíaco e linguagem durante conversas difíceis, para entender o que realmente separa relação estável de relação fadada ao fim. Ele identificou três perfis de casal estável, o validador, que discute com calma e reconhece o ponto do outro antes de responder, o volátil, que discute alto, expõe divergência com intensidade, mas também expressa afeto com a mesma intensidade, e o evitador, que minimiza atrito e prefere sempre focar no que os dois já concordam.
O detalhe que a maioria ignora é o seguinte, os três perfis só se mantêm estáveis quando conseguem sustentar uma proporção específica, cerca de cinco interações positivas para cada interação negativa durante o conflito. Casais voláteis conseguem isso porque têm tanto atrito alto quanto afeto alto, o amor é tão intenso quanto a briga. Casais que evitam sistematicamente o atrito, por outro lado, tendem a ter poucas interações negativas, mas, junto com isso, também acumulam poucas interações positivas de verdade, porque deixaram de se engajar genuinamente um com o outro. Sem engajamento real, sobra pouco motivo para o calor que sustenta qualquer vínculo por muito tempo. Calmaria pode ser sinal de conexão profunda. Também pode ser sinal exato do oposto, de duas pessoas que já pararam de se importar o suficiente para discordar.
A pesquisadora de Harvard Amy Edmondson dedicou a carreira a estudar o que ela chamou de segurança psicológica dentro de equipe de trabalho, e o achado mais citado dela costuma ser mal interpretado. Segurança psicológica não significa ambiente confortável e sem atrito. Significa o oposto, um ambiente onde as pessoas se sentem seguras o suficiente para discordar abertamente, admitir erro e questionar decisão sem medo de punição. Quando o Google conduziu sua própria pesquisa interna, batizada de Projeto Aristóteles, para entender o que realmente diferenciava os times mais eficazes da empresa, a conclusão bateu exatamente com o trabalho de Edmondson, segurança psicológica foi o fator mais determinante de todos, mais do que talento individual reunido na mesma sala.
Um dado da própria pesquisa de Edmondson chama atenção, cerca de oitenta e cinco por cento dos funcionários já deixaram de contar algo importante para o próprio gestor por medo da reação que isso poderia provocar. Cada uma dessas omissões parece, na hora, um gesto de cuidado ou de prudência. Somadas ao longo do tempo, elas formam exatamente o tipo de silêncio que impede um time de corrigir erro a tempo, e impede uma relação de se aprofundar de verdade. Ausência visível de discordância, dentro de uma equipe, quase nunca é sinal de harmonia genuína. Na maioria das vezes, é sinal de discordância empurrada para debaixo do tapete, esperando para aparecer de um jeito bem mais caro depois.
Ainda na Ética a Nicômaco, Aristóteles descreveu três tipos de amizade. A baseada em utilidade, que dura enquanto os dois lados se beneficiam um do outro. A baseada em prazer, que dura enquanto a companhia do outro for agradável. E a baseada em virtude, a única que ele considerava capaz de durar de verdade, porque essa depende de conhecer o caráter completo do outro, incluindo aquilo que incomoda, discorda ou desaponta de vez em quando. Uma amizade que nunca foi testada por nenhum tipo de atrito real nunca teve a chance de provar se é do terceiro tipo ou apenas uma versão confortável dos dois primeiros, sustentada só enquanto for fácil de sustentar.
Juntando essas três pesquisas, aparece uma resposta mais precisa do que simplesmente mais conflito gera mais vínculo. O que gera vínculo profundo não é o volume de atrito em si, é a disposição de encarar esse atrito de frente, olho no olho, em vez de varrê-lo para debaixo do tapete. Casal e time que discordam abertamente, com respeito, constroem confiança justamente porque provam, repetidamente, que a relação sobrevive à divergência. Casal e time que evitam sistematicamente esse desconforto trocam a briga visível por um desgaste invisível, que corrói a mesma coisa por dentro, só que sem deixar ninguém perceber a tempo de consertar.
Para quem lidera, a implicação prática é direta. O sim automático que evita o desconforto imediato de uma conversa difícil raramente está protegendo a relação, está apenas adiando o momento em que ela vai precisar provar, de verdade, se é sólida o suficiente para sobreviver a uma divergência real. Vínculo que nunca foi testado por um não sincero também nunca teve a chance de mostrar do que é feito.
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