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Zeitgeist: como uma palavra tão poderosa pode ser tão desconhecida?

Por que a mesma ideia pode fracassar numa década e triunfar na seguinte? A resposta está numa palavra alemã do século XVIII que poucos empreendedores conhecem.

Tem uma palavra alemã do século dezoito que explica, melhor do que qualquer teoria de negócio, por que às vezes a mesma ideia fracassa na mão de uma pessoa e triunfa na mão de outra. Pouquíssimos empreendedores conhecem ela com profundidade.

Existe uma palavra alemã que explica, melhor do que qualquer teoria de negócio, por que a mesma ideia pode fracassar numa década e triunfar na seguinte, nas mãos de gente completamente diferente, e ainda assim quase ninguém fora da filosofia e da linguística já ouviu falar dela com profundidade. Zeitgeist, o espírito do tempo. Talvez o motivo dessa palavra permanecer tão desconhecida seja exatamente o que ela descreve, ela fala sobre forças que operam por trás dos nomes que a história decide lembrar, e força invisível raramente vira assunto de conversa, porque ninguém tira foto do espírito do tempo, só das pessoas que ele usa para se manifestar. O filósofo Johann Gottfried Herder cunhou o termo no século dezoito, mas foi Georg Wilhelm Friedrich Hegel quem o transformou em ferramenta séria de interpretar a história, e a cena que ilustra essa ideia é real, documentada em carta do próprio Hegel, não lenda de sala de aula.

Em 1806, Napoleão Bonaparte entrou a cavalo na cidade de Jena, na véspera de esmagar o exército prussiano numa batalha que mudaria o mapa da Europa. Hegel, professor na universidade local, viu o imperador passar pela rua e escreveu para um amigo, com admiração quase reverente, que tinha visto a alma do mundo montada a cavalo. Weltseele zu Pferde, no alemão original. Para Hegel, Napoleão não era o autor da mudança histórica que estava acontecendo ali, era o instrumento dela, o indivíduo específico que aconteceu de estar no lugar certo, na hora em que as forças históricas mais amplas, o fim do feudalismo, a ascensão do estado moderno, já estavam maduras demais para não encontrar alguém que as executasse. Tirem Napoleão daquele cavalo, argumentava Hegel, e a força histórica que ele representava encontraria outro cavaleiro. O espírito do tempo não espera indivíduo nenhum, ele usa quem estiver disponível quando a hora chega.

O mundo dos negócios oferece um exemplo quase perfeito desse mecanismo, e ele nem exige recuar até o século dezenove. Em 1990, um grupo de veteranos da Apple fundou uma empresa chamada General Magic, com o objetivo explícito de criar o que hoje chamaríamos de smartphone, um aparelho de bolso, com tela sensível ao toque, capaz de fazer ligação, enviar mensagem, jogar e navegar por ícones organizados em grade. A equipe reunia nomes que depois se tornariam lendários, Tony Fadell, que ajudaria a criar o iPod e o iPhone anos mais tarde, Andy Hertzfeld, um dos criadores do Macintosh original, Megan Smith, que se tornaria diretora de tecnologia dos Estados Unidos. O talento reunido ali era, sem exagero, um dos mais impressionantes já concentrados numa única empresa de tecnologia.

O produto fracassou. A empresa vendeu meros três mil aparelhos, queimou setenta e quatro milhões de dólares entre 1990 e 1996, e fechou definitivamente em 2002. O problema nunca foi falta de visão ou de talento, a documentação da época mostra uma equipe que enxergava com clareza o futuro que estava tentando construir. O problema era que a infraestrutura necessária para aquele futuro simplesmente não existia ainda, rede de dados móvel lenta demais, bateria fraca demais, tela cara demais, e um público que ainda nem sabia que precisava daquilo. Dezessete anos depois, em 2007, Steve Jobs subiu num palco e apresentou o iPhone, construído sobre exatamente a mesma visão central que a General Magic já tinha em 1990, só que agora com rede de dados rápida, bateria de lítio eficiente, tela capacitiva barata o suficiente para produção em massa, e um público que já vinha sendo preparado havia anos pelo próprio iPod. Tony Fadell, que tinha saído da General Magic derrotado, estava lá dentro da Apple ajudando a construir o mesmo sonho que finalmente encontrou seu momento certo.

O paralelo com Hegel fica difícil de ignorar depois desse caso. A ideia do smartphone não pertencia a Steve Jobs nem a Marc Porat, fundador da General Magic. Pertencia ao espírito do tempo, que passou dezessete anos amadurecendo silenciosamente, através de avanço em bateria, miniaturização de componente, expansão de rede de dados e mudança de comportamento do consumidor, até encontrar alguém no lugar certo, com os recursos certos, para finalmente executá-la. Se Jobs não tivesse existido, é bastante provável que outra empresa, em algum momento próximo daquela mesma década, teria lançado algo parecido, porque as condições já estavam maduras o suficiente para que a descoberta se tornasse, nas palavras que o sociólogo Robert Merton usaria mais tarde para descrever esse mesmo fenômeno em outras áreas da ciência, praticamente inevitável para quem estivesse prestando atenção com os recursos certos nas mãos.

Isso não diminui o mérito de quem executa. Continua sendo extraordinariamente difícil reconhecer o momento exato em que o zeitgeist amadureceu o suficiente, e mais difícil ainda ter a capacidade de mobilizar recurso, capital e equipe para capturar essa janela antes que outra pessoa capture primeiro. Mas devolve um pouco de humildade necessária para qualquer empreendedor que acredita ter tido a única ideia genial que ninguém mais teria tido. Quase sempre, alguém já teve aquela ideia antes, numa época em que o mundo ainda não estava pronto para recebê-la, e o verdadeiro trabalho de quem constrói algo grande não é apenas inventar o futuro, é sentir com precisão a hora exata em que ele já amadureceu o suficiente para nascer.

Diante de qualquer ideia que pareça óbvia demais para ainda não ter dado certo, vale perguntar, isso está fracassando porque a execução está errada, ou porque o mundo ainda não tem a infraestrutura, o comportamento ou a tecnologia necessária para sustentar essa ideia agora. São dois diagnósticos completamente diferentes, e tratá-los como se fossem o mesmo problema é o erro mais caro que existe nessa área. Um produto mal executado precisa ser corrigido. Um produto certo lançado cedo demais só precisa de paciência, capital para sobreviver até lá, e a humildade de saber que talvez não seja você quem vai colher o resultado final, mesmo tendo sido você quem viu o futuro primeiro.