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O mito do músico pobre esconde uma verdade desconfortável sobre negócio

As estatísticas de sucesso na música e no empreendedorismo são quase idênticas. Então por que só avisamos o músico que vai ficar pobre?

Toda família brasileira já disse essa frase para algum filho que demonstrou interesse por música, larga esse violão e estuda, com música você não vai ganhar dinheiro. A frase pega tanta força que vira quase senso comum, sem ninguém nunca ter feito a pergunta óbvia que deveria vir logo depois. E quantos empresários, de fato, enriquecem empreendendo?

Segundo dados do Bureau of Labor Statistics americano, cerca de vinte por cento das pequenas empresas fecham as portas já no primeiro ano de vida. Aos cinco anos, a metade delas já não existe mais. Aos dez anos, quase dois terços fecharam. Ninguém avisa um jovem que está pensando em abrir o próprio negócio, com empresa você vai ficar pobre, mesmo a estatística de fracasso sendo brutal e bem documentada. O aviso reservado só para quem escolhe música é seletivo, e essa seletividade merece ser questionada.

A verdade mais honesta é que música e empreendedorismo seguem exatamente o mesmo tipo de distribuição de resultado. A maioria das bandas toca em barzinho, ganha o suficiente para pagar o equipamento e pouco mais, e nunca vira nome nacional. A maioria dos pequenos negócios também é isso, um comércio de bairro que sustenta a família do dono sem nunca virar grande empresa. Uma minoria pequena, em ambos os casos, captura a maior parte do resultado extraordinário, seja em audiência e contrato de gravadora, seja em faturamento e valuation. Investidor de capital de risco já aceitou isso como regra do próprio jogo, a maior parte dos investimentos feitos por um fundo não retorna o capital investido, um punhado pequeno de apostas certas paga por todas as erradas e ainda sobra lucro. Ninguém chama isso de fracasso do modelo, chama de natureza da distribuição. Vale aplicar a mesma honestidade estatística para música e para negócio, em vez de tratar um como aposta perigosa e o outro como caminho seguro, quando os dois obedecem à mesma curva.

Uma vez destruído o mito de que empreender é seguro e música é arriscada, sobra a pergunta mais interessante, o que justifica um empresário investir tempo aprendendo a tocar um instrumento, compor, entender melodia, ritmo e harmonia, mesmo sem intenção nenhuma de virar músico profissional. A resposta não está no retorno financeiro direto, está na transformação de quem pratica.

Reparar num aspecto pouco discutido, liderar uma banda exige exatamente o mesmo tipo de habilidade que liderar uma empresa. Alguém precisa marcar o ensaio, garantir que todos apareçam preparados, decidir o repertório que vai compor o show, ajustar o andamento quando a plateia pede outra energia, e ainda ouvir o que os outros músicos estão tocando enquanto toca a própria parte, sem perder o tempo do conjunto. O professor Frank Barrett, ele próprio pianista de jazz profissional além de acadêmico de gestão, escreveu um livro inteiro sobre isso, mostrando como músico de jazz de elite pratica constantemente uma habilidade que qualquer líder de empresa precisa desenvolver, a capacidade de improvisar dentro de uma estrutura, negociar em tempo real com quem está ao lado, e seguir em frente sem travar diante do erro que acabou de acontecer no meio da música. Empresa madura funciona de um jeito parecido, com estrutura o suficiente para não virar caos, e liberdade o suficiente para reagir ao imprevisto sem esperar um roteiro perfeito que nunca vai existir.

Existe também um ganho de repertório pessoal que raramente é medido em relatório de resultado, mas que aparece de outras formas na vida de quem pratica. Contemplar melodia, entender por que um acorde soa tenso e outro soa resolvido, treinar o ouvido para perceber nuance que a maioria das pessoas nunca nota, tudo isso desenvolve um tipo de sensibilidade que extrapola o instrumento em si. Um empresário que também é, de alguma forma, músico, carrega repertório cultural diferente, senso de contemplação mais apurado, e uma referência de disciplina construída fora do próprio negócio, que costuma voltar para dentro dele de formas indiretas e difíceis de quantificar, mas reais.

Fica então a pergunta que fecha o raciocínio, será que o número de bandas que fazem sucesso realmente tem relação com o número de empresas que realmente fazem sucesso. A resposta honesta é sim, guardadas as proporções, porque os dois fenômenos nascem da mesma raiz, tentativa coletiva, distribuída, onde a maioria produz resultado modesto e uma minoria produz resultado extraordinário, sem que isso desqualifique quem ficou no meio do caminho. Ninguém trata o dono do comércio de bairro como fracassado só porque não virou uma rede nacional, e ninguém deveria tratar o músico de barzinho como fracassado só porque não assinou contrato com gravadora grande. Os dois estão jogando o mesmo jogo estatístico, e os dois, ao longo do processo, desenvolveram uma habilidade real, só que a habilidade do músico raramente é reconhecida como capital transferível para outras áreas da vida, quando na prática costuma ser exatamente isso.