O que Cem Anos de Solidão ensina sobre empresa que se repete
Li Cem Anos de Solidão pela primeira vez há alguns anos, e nunca mais vi empresa familiar da mesma forma. A Netflix lançou recentemente a série baseada no livro, e isso me deu pretexto para reler tudo com os olhos de quem acompanha negócios de família há quase duas décadas.
Cem Anos de Solidão nasceu como romance de Gabriel García Márquez, publicado em 1967, e a história da família Buendía e da cidade de Macondo funciona como um espelho incomodamente preciso para quem lidera empresa, principalmente empresa de família, mesmo tendo sido escrita décadas antes de qualquer um desses negócios existir.
José Arcadio Buendía funda Macondo com energia quase incontrolável, obcecado por invenção, descoberta e experimento, arrastando a própria família para o meio da selva atrás de uma visão que só ele enxergava com clareza total. É o arquétipo exato do fundador visionário, brilhante, inquieto, incapaz de parar de perseguir a próxima ideia. O problema aparece quando essa mesma obsessão, sem nenhum contrapeso prático, o afasta cada vez mais da realidade concreta ao redor, até ele passar os últimos anos da própria vida amarrado a uma castanheira no quintal de casa, falando latim sozinho, tecnicamente vivo, funcionalmente ausente da própria família e do próprio povoado que fundou. Visão sem gente que traga o pé de volta ao chão de vez em quando não sustenta negócio nenhum além do próprio impulso inicial de quem o criou.
Ao longo de seis gerações, os Buendía batizam os próprios filhos, repetidamente, com o mesmo punhado de nomes, José Arcadio, Aureliano, e a cada geração os personagens com aquele nome tendem a repetir também o mesmo traço de caráter e o mesmo tipo de erro que o antecessor homônimo já tinha cometido. Ninguém na família para para estudar a própria história com atenção suficiente para quebrar o padrão, até um dos últimos personagens finalmente decifrar os manuscritos proféticos que anteciparam a queda da família inteira, tarde demais para mudar qualquer coisa. Isso não é só recurso literário. Pesquisa real sobre empresa familiar mostra que apenas cerca de trinta por cento sobrevive até a segunda geração, e somente doze por cento chega à terceira, e a causa mais comum de colapso raramente é falta de competência técnica do herdeiro, é repetição do mesmo erro de gestão, do mesmo conflito mal resolvido, da mesma ausência de plano de sucessão, sem que ninguém pare para estudar por que a geração anterior já tinha tropeçado exatamente ali.
Um dos momentos mais fortes do livro acontece quando o coronel Aureliano Buendía, depois de acumular poder militar suficiente para liderar dezenas de revoluções fracassadas, manda desenhar um círculo de giz ao redor de si mesmo, e ordena que ninguém, nem sua própria mãe, se aproxime mais do que três metros sem autorização prévia. O homem que começou como o filho mais sensível e mais próximo da família termina fisicamente isolado da própria família por decreto próprio, justamente no auge do próprio poder. É uma imagem quase didática do que costuma acontecer quando liderança se acumula sem nenhum mecanismo de correção, o círculo de proteção que deveria manter ameaça de fora acaba mantendo justamente as pessoas certas de fora também, até sobrar isolamento puro no centro dele.
A parte mais sombria do romance é também a mais historicamente real. Em dezembro de 1928, tropa do exército colombiano abriu fogo contra trabalhador em greve da United Fruit Company, na cidade de Ciénaga. O número oficial de morto declarado pelo comandante foi quarenta e sete. Estimativa histórica independente chega a mais de mil, e ninguém jamais soube ao certo, porque o corpo foi removido às pressas e o governo culpou publicamente agitador estrangeiro pela violência. Poucos anos depois, praticamente ninguém no país lembrava oficialmente que aquilo tinha acontecido. García Márquez recriou esse apagamento quase ao pé da letra no romance, um massacre inteiro de trabalhador que a força oficial da história decide, coletivamente, fingir que nunca existiu. Empresa real faz a própria versão pequena e cotidiana disso o tempo inteiro, quando evita analisar com honestidade um erro caro depois que ele já aconteceu, quando troca a equipe inteira em vez de entender por que o projeto fracassou, quando prefere reescrever a própria narrativa interna a admitir, por escrito, o que realmente deu errado e por quê.
O livro termina com uma sentença que resume a tese inteira, raça condenada a cem anos de solidão não teria uma segunda oportunidade sobre a terra. A ameaça real, para qualquer negócio, nunca foi cometer erro, todo negócio comete. É repetir o mesmo erro, geração após geração ou ciclo após ciclo, porque ninguém parou tempo suficiente para decifrar o próprio manuscrito antes do vento levar tudo embora. Quebrar esse padrão exige exatamente o que a família Buendía nunca teve, disposição de estudar a própria história com honestidade, mesmo quando ela dói, antes que o tempo se encarregue de repeti-la sem pedir licença.
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