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Caos também é ordem, só que quase ninguém aprendeu a ler

Hesíodo, 700 a.C.: caos era vazio gerador, não destruição. Edward Lorenz, MIT, 1961: o que parece caótico é ordem complexa por baixo. Isso muda como se lê crise.

Há um conceito que mudou a forma como interpreto qualquer período de turbulência dentro de uma empresa. Ele começa com a história de uma palavra que todo mundo usa com o significado errado.

Todo mundo teme o caos. Poucos param para notar que a própria palavra, na origem, nunca quis dizer o que hoje quer dizer, e que essa mudança de sentido esconde uma das inversões mais curiosas da história da linguagem.

Por volta do ano 700 antes de Cristo, o poeta grego Hesíodo escreveu a Teogonia, o relato mais antigo que existe sobre a origem dos deuses gregos, e a primeira frase sobre a criação do universo diz, quase literalmente, primeiro veio a existir o Caos. A palavra grega vem do verbo chainein, abrir bem largo, boquiabrir-se, e significava fenda, abismo, vão vazio, não confusão, não desordem, não destruição. Caos, para Hesíodo, não era um deus da destruição nem um monstro a ser temido. Era o vazio primordial, silencioso e sem intenção própria, de onde nasceram os primeiros elementos do próprio universo ordenado, a terra, o abismo profundo, o desejo, a escuridão e a noite. A ordem que viria depois, o próprio cosmos organizado, nasceu de dentro do caos, não apesar dele. O sentido de desordem que a palavra carrega hoje só apareceu séculos depois, quando o poeta romano Ovídio, ao traduzir o mito para o latim, reinterpretou o caos original como uma massa bruta e desorganizada de elemento misturado, terra, mar, fogo e água sem fronteira nenhuma entre si. Essa reinterpretação latina colou, e definiu o significado da palavra pelos dois mil anos seguintes, apagando quase por completo o sentido original grego, de vazio gerador, para o sentido moderno, de confusão destrutiva. Não existe, na tradição grega mais antiga, um deus do caos empunhando destruição contra a ordem. Existe um vazio fértil, anterior a tudo, que gerou a própria ordem que conhecemos.

A física e a matemática redescobriram, sem saber, algo parecido com o sentido original de Hesíodo. Em 1961, o meteorologista Edward Lorenz, do MIT, rodava uma simulação de clima no computador quando percebeu algo estranho, um pequeno arredondamento de casa decimal na condição inicial produzia, depois de algumas rodadas, um resultado completamente diferente do esperado. Lorenz não tinha encontrado aleatoriedade de verdade. Tinha encontrado um sistema determinístico, seguindo regra fixa e precisa o tempo inteiro, mas tão sensível à própria condição inicial que se tornava, na prática, impossível de prever com exatidão. O que parecia caótico continuava sendo ordem pura por baixo, só que ordem complexa demais para o olho humano decifrar de relance.

Outro fenômeno parecido explica por que sistema com regra individual simples pode parecer, de fora, completamente desorganizado. Em 1986, o cientista da computação Craig Reynolds programou um modelo simples, batizado de boids, no qual cada agente virtual seguia apenas três regras básicas, manter distância do vizinho mais próximo, seguir a direção média do grupo ao redor, e se mover em direção ao centro do bando. O resultado, quando centenas desses agentes interagiam ao mesmo tempo, era um comportamento de bando de pássaro extremamente realista, fluido, imprevisível a cada instante e, ainda assim, gerado inteiramente por regra individual simples e determinística. Ninguém programou o padrão do bando inteiro. O padrão emergiu sozinho, de baixo para cima, a partir de regra local repetida por muita gente ao mesmo tempo.

O empresário que trata todo período de instabilidade como inimigo a ser sobrevivido, esperando a volta da ordem visível de antes, está cometendo o mesmo erro histórico que Ovídio cometeu com a palavra grega, confundindo vazio gerador com destruição pura. Mercado que parece caótico, cliente que muda de comportamento sem aviso, concorrente novo surgindo do nada, quase sempre segue regra real por baixo da superfície instável, só que essa regra ainda não foi decifrada por quem está olhando de fora com pressa. A pergunta certa durante qualquer período turbulento não é como faço esse caos passar logo. É que regra simples, ainda invisível para mim, está gerando esse padrão que hoje só parece bagunça.

Empresa que aprende a ler o próprio caos, em vez de só temê-lo, encontra ali o mesmo tipo de nascimento que Hesíodo descreveu, não o fim da ordem, o início de uma ordem nova que ainda não tinha nome. O vazio nunca foi o inimigo da criação. Foi, desde o primeiro poema que tentou explicar a origem de tudo, a condição necessária para ela.