A mente busca prova, não verdade
Você já percebeu como é difícil mudar de posição depois que já tomou uma decisão? Isso não é teimosia. Tem um nome, tem quase setenta anos de pesquisa documentada, e explica boa parte da autossabotagem que qualquer líder já cometeu sem perceber.
A mente humana busca ativamente prova daquilo que já acredita, e evita, de forma quase automática, qualquer evidência que ameace derrubar essa crença. Isso tem nome, tem quase setenta anos de pesquisa documentada, e explica boa parte da autossabotagem que qualquer líder já cometeu sem perceber.
Em 1960, o psicólogo Peter Wason conduziu um experimento hoje clássico, batizado de tarefa dos números dois, quatro, seis. Ele apresentava essa sequência a um voluntário e pedia que descobrisse a regra por trás dela, testando quantas outras sequências quisesse e recebendo feedback se cada tentativa seguia ou não a regra. Quase todo participante formava uma hipótese rápida, números pares em ordem crescente, e passava o resto do tempo testando apenas sequência que confirmava essa hipótese, oito dez doze, cem duzentos trezentos. A regra real era muito mais simples, qualquer número em ordem crescente. Quase ninguém a descobria, porque quase ninguém testava uma sequência desenhada para tentar provar a própria hipótese errada, todos testavam só o que confirmaria a hipótese que já tinham. Wason batizou esse padrão de viés de confirmação, e ele continua sendo um dos achados mais replicados de toda a psicologia cognitiva.
A peça que faltava veio alguns anos antes, com o psicólogo Leon Festinger, que descreveu em 1957 o conceito de dissonância cognitiva, o desconforto genuíno que sentimos quando um fato novo contradiz uma crença ou uma escolha já feita. A saída mais fácil diante desse desconforto quase nunca é mudar a crença. É distorcer a percepção do próprio fato, minimizá-lo, arranjar explicação alternativa, até ele parar de incomodar. Autossabotagem, na prática, é isso, a mente protegendo a própria crença antiga às custas do resultado real que a pessoa diz querer alcançar. Parece falta de inteligência, mas trata-se do mecanismo de defesa psicológica funcionando exatamente como projetado, só que direcionado contra o próprio interesse de quem o carrega.
Epicteto, dois mil anos antes de Wason e Festinger, ensinava que toda impressão que chega à mente, antes de ser aceita como verdade, deveria passar por exame deliberado, e não hesitava em dizer que a diferença entre um homem livre e um homem escravo das próprias reações estava exatamente nesse intervalo, entre receber uma impressão e conceder assentimento a ela. Os estoicos chamavam essa vigilância constante sobre a própria mente de prosoche, atenção sustentada, o hábito de desacelerar entre o que parece verdadeiro e o que realmente é, sem aceitar a primeira impressão só porque ela chegou convincente e rápida. Filosofia, cosmovisão e ciência cognitiva moderna estão descrevendo, com vocabulário diferente, o mesmo fenômeno, a mente tende a aceitar rápido demais o que já queria acreditar, e só disciplina deliberada consegue interromper esse hábito automático.
Em 2000, os fundadores da Netflix ofereceram a própria empresa à Blockbuster por cinquenta milhões de dólares. O presidente da Blockbuster, John Antioco, avaliou o serviço de aluguel de DVD por correio como negócio de nicho, e a delegação foi, segundo relato dos próprios fundadores da Netflix, praticamente expulsa da sala em meio a risada. A Blockbuster faturava seis bilhões de dólares por ano na época, e boa parte disso vinha de multa por atraso e loja física, exatamente o modelo que a proposta ameaçava questionar. Vale registrar, com honestidade, que a decisão inicial não foi tão irracional quanto parece em retrospecto, o próprio Clayton Christensen, autor de referência sobre inovação disruptiva, reconheceu que os dois públicos eram diferentes naquele momento específico. O erro da Blockbuster, além de recusar a oferta em 2000, foi continuar reafirmando a mesma crença por anos seguintes, mesmo quando a evidência de mudança de comportamento do consumidor já estava clara, até declarar falência em 2010.
Nenhum líder está imune ao próprio viés de confirmação, isso não é falha de caráter ou experiência, é como a mente humana funciona por padrão. O que separa quem lidera bem de quem se sabota lentamente é a disciplina de instalar mecanismo externo contra esse padrão, não confiar apenas na própria força de vontade para percebê-lo. Vale nomear, formalmente, alguém no time com liberdade explícita para argumentar o oposto de qualquer decisão importante antes dela ser fechada. Vale perguntar, antes de qualquer conclusão relevante, o que precisaria ser verdade para essa decisão estar errada, e ir atrás exatamente dessa resposta, não da que já parece confortável. E vale, como os estoicos ensinavam, desacelerar entre a primeira impressão convincente e o assentimento automático a ela, porque é exatamente nesse intervalo pequeno, quase sempre pulado, que a diferença entre acompanhar a realidade e apenas confirmar a própria crença se decide.
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