O que a atração mais forte revela sobre você, não sobre o outro
Existe uma pergunta que passei anos evitando porque a resposta desconfortava: o que diz sobre mim o fato de ser tão atraído por certos tipos de pessoa? Quando finalmente fiz essa pergunta de verdade, entendi algo que mudou a forma de me relacionar.
Existe uma leitura psicológica da atração que vai no sentido oposto do que a maioria das pessoas imagina. A ideia popular é que o que você ama no outro revela o que você valoriza. A leitura analítica é diferente, o que você ama no outro pode revelar o que você reprime em si mesmo. Carl Jung chamou de sombra o conjunto de características que cada pessoa desenvolve ao longo da vida como inaceitáveis para a própria autoimagem, e portanto esconde, nega e proíbe de aparecer com frequência. Quanto mais rígida a autoimagem, mais material fica na sombra. Quanto mais material fica na sombra, maior a tendência de se sentir atraído por pessoas que exibem exatamente aquelas características, porque estar perto delas é a forma não consciente de viver através delas o que a própria censura interna não permite viver diretamente.
Isso explica uma série de fenômenos que a leitura superficial deixa sem explicação. O executivo extremamente controlado que se apaixona pela artista caótica. A pessoa criativa e desestruturada que se atrai compulsivamente pelo parceiro obsessivamente organizado. A atração não é coincidência, é psicologia, a sombra reconhecendo no outro o que o ego proibiu de aparecer no próprio espelho. A implicação clínica disso é menos romântica do que parece. Se a atração intensa por alguém específico funciona como projeção de sombra, o que mantém o ciclo é menos a qualidade objetiva daquela pessoa e mais a necessidade interna de integrar aquilo que foi exilado. Isso não significa que a atração é ilusória, significa que ela tem mais a dizer sobre quem está sentindo do que sobre quem está sendo objeto dela.
A pesquisa empírica sobre complementaridade na atração produz resultado mais complexo do que o senso comum de que opostos se atraem. O psicólogo Robert Winch estudou, nos anos 1950, a hipótese de que casais se formam por necessidades complementares, alguém dominante com alguém submisso, alguém que cuida com alguém que precisa de cuidado. A hipótese parecia sólida e intuitivamente convincente. Os dados, quando testados rigorosamente em décadas seguintes por grupos independentes, produziram evidência muito mais fraca do que se esperava. Similaridade tende a prever relacionamento de longo prazo melhor do que complementaridade, mas os casos mais intensos e memoráveis de atração inicial muitas vezes envolvem exatamente a diferença que a psicologia da sombra descreveria.
O ponto mais prático disso não é diagnóstico de relacionamento, é convite à honestidade. Quando a atração por alguém é muito mais forte do que a razão explicaria, vale perguntar o que aquela pessoa representa que você não se permite ser. Não para rejeitar a atração, mas para entender o que ela está tentando integrar. Às vezes o que parece amor pelo outro é, no começo, o início de uma relação consigo mesmo, a sombra pedindo para ser reconhecida de um jeito que a pessoa ainda não encontrou de fazer diretamente. E essa integração, quando acontece, costuma mudar o padrão de atração, porque a necessidade de buscar no outro o que estava reprimido em si mesmo vai diminuindo conforme o que estava na sombra ganha espaço dentro da própria vida consciente.
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