O amor precisa de um idiota
Tem uma contradição dentro de qualquer negócio que levei tempo para entender: o momento em que você mais precisa da razão é exatamente o momento em que a razão, sozinha, não resolve. Deixa eu te mostrar o que isso significa na prática.
Existe uma frase de Nietzsche que é politicamente incorreta e ao mesmo tempo verdadeira de um jeito que vale a pena examinar antes de descartar, há sempre um grão de loucura no amor. Mas há sempre também um grão de razão na loucura. A frase não é defesa de irracionalidade. É uma observação sobre como certos tipos de comprometimento, os que geram resultado real ao longo do tempo, só funcionam quando incluem um elemento que não se justifica inteiramente pela planilha.
A teoria econômica clássica descreve o agente racional como aquele que, diante de qualquer decisão, calcula probabilidades, pondera utilidade esperada, e escolhe o que maximiza resultado. Esse modelo é útil, mas incompleto. Quem já se apaixonou, quem já fundou empresa, quem já decidiu ter filho, sabe que a maior parte das decisões que mais importaram na própria vida não foram tomadas depois de calcular probabilidades. Foram tomadas apesar delas. Nassim Taleb descreveu, no livro Antifrágil, como certas apostas assimétricas, aquelas com downside limitado e upside potencialmente enorme, são racionais exatamente porque o custo de não tentar é subestimado pela análise convencional. Amor, segundo esse enquadramento, pode ser descrito como uma opção com custo limitado de perda e ganho potencialmente irreplicável, que a lógica pura sistematicamente subprecifica porque o ganho não é facilmente mensurável com antecedência.
Mas esse enquadramento tem um limite que Taleb não resolve. Opção financeira tem prazo de exercício. Amor não tem. Compromisso de longo prazo com um ser humano, com um projeto, com uma empresa, é diferente de qualquer opção calculada porque o valor central do compromisso está justamente na irrevogabilidade dele. A pessoa que ama porque o modelo probabilístico favorece não está amando, está otimizando. E otimizar relacionamento é uma forma eficiente de destruir exatamente o que tornava aquele relacionamento valioso.
O grão de loucura que Nietzsche identificava é o elemento que ultrapassa o cálculo e entra no território do comprometimento que não se renegocia a cada trimestre. É o que permite atravessar a fase em que a planilha diria sair e ficou porque acredita, não porque o modelo favorece. Empresário que decide com frieza absoluta sobre o próprio time, sobre o próprio produto, sobre o próprio cliente, geralmente decide pior do que parece à primeira vista, porque tira da equação o comprometimento que sustenta o outro lado da relação. Ninguém dá o melhor de si por um gestor que trata tudo como posição a ser otimizada.
A lógica de Nietzsche não é anti-inteligência. É anti-redução. É a observação de que os melhores resultados da vida, incluindo os de negócio, quase nunca vêm de análise perfeita seguida de execução fria. Vêm de análise suficientemente boa seguida de comprometimento suficientemente irracional para sustentar a travessia inteira, incluindo a parte que a análise inicial não previu. O idiota que ama sem garantia não é menos inteligente do que o analista que só age quando a probabilidade já é alta. É, muitas vezes, quem chega ao resultado que o analista já havia descartado como improvável demais para merecer tentativa.
Member discussion