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Perguntas desconfortáveis

Sócrates foi executado por perguntar demais. Andy Grove salvou a Intel com uma pergunta que ninguém tinha coragem de fazer. O que os dois têm em comum.

Todo mundo fala em sair da zona de conforto. Aparece em palestra, em post, em treinamento corporativo, quase como um mantra que ninguém mais questiona. Na prática, o teste mais simples e mais revelador dessa disposição, para quem lidera, não é uma meta agressiva de faturamento nem uma decisão arriscada de expansão. É uma pergunta. A pergunta que ninguém na sala quer fazer, porque existe medo real de fazer, ou simplesmente ninguém sabe como formular ela direito, e responder de verdade fica ainda mais difícil do que perguntar. Fugir é sempre mais fácil e mais confortável do que qualquer uma das duas coisas. A diferença entre empresa que estagna e empresa que continua se corrigindo a tempo mora, com uma frequência maior do que se imagina, exatamente nesse detalhe.

Sócrates não escreveu nada. O método dele era perguntar, repetidamente, até que a pessoa entrevistada percebesse, sozinha, uma contradição escondida dentro da própria certeza. Os gregos chamavam isso de elenchus, o processo de examinar uma crença através de pergunta sucessiva até ela desmoronar ou se sustentar sozinha. Sócrates fazia isso com general, poeta, político e sacerdote, gente que ocupava posição de prestígio em Atenas e que, até aquele momento, nunca tinha sido obrigada a defender em voz alta o que só parecia óbvio por dentro da própria cabeça.

Em 399 antes de Cristo, Atenas condenou Sócrates à morte, formalmente acusado de corromper a juventude e desrespeitar os deuses da cidade. Historiadores concordam que a acusação real, por trás da formal, era mais simples e mais incômoda, ele tinha passado décadas expondo publicamente a fragilidade das certezas de gente poderosa demais para gostar de ser exposta. A pergunta desconfortável não é, historicamente, um exercício inofensivo de crescimento pessoal. Já custou a vida de quem a fez em voz alta, para as pessoas erradas, no momento errado. Isso ajuda a explicar, num nível quase visceral, por que o corpo reage com tanto desconforto diante da possibilidade de fazer, ou de responder, uma pergunta que realmente incomoda.

Existe uma pesquisa que mostra, com número concreto, o momento exato em que essa capacidade começa a desaparecer. A psicóloga do desenvolvimento Susan Engel, da Williams College, passou anos observando salas de aula reais para medir episódios de curiosidade, definidos como pergunta espontânea, olhar investigativo prolongado ou manipulação ativa de algum objeto para entender como funciona. Na pré-escola, esses episódios aconteciam em média duas vírgula trinta e seis vezes a cada duas horas de aula. Na quinta série, esse número já tinha caído para zero vírgula quarenta e oito, uma queda de quase oitenta por cento. Engel não encontrou evidência de que essa queda fosse natural ou biológica. Encontrou evidência de que o ambiente escolar, com sua ênfase em resposta certa e conteúdo dentro do prazo, ensina a criança, de forma silenciosa e consistente, que perguntar fora do roteiro custa mais caro do que vale a pena.

O adulto que chega à vida profissional já treinou, durante mais de uma década, o hábito de entregar a resposta esperada em vez de formular a pergunta desconfortável. Ninguém perdeu a capacidade de perguntar fundo. Só passou anos sendo recompensado por não fazer isso.

O pesquisador de Harvard Chris Argyris estudou, ao longo da carreira, por que profissionais extremamente bem sucedidos costumam ser péssimos justamente na hora de aprender com uma pergunta ou uma crítica difícil. A conclusão dele, publicada num artigo de referência da Harvard Business Review, é quase irônica, esses profissionais raramente fracassaram ao longo da própria trajetória, então nunca precisaram desenvolver a musculatura de examinar a própria premissa quando algo dá errado. Diante de crítica ou pergunta incômoda, o reflexo automático é raciocínio defensivo, atribuir a culpa a fator externo, e fechar a conversa antes que ela chegue perto de qualquer coisa realmente difícil de ouvir. Argyris resumiu isso numa frase que vale releitura, a capacidade de aprender dessas pessoas trava exatamente no momento em que elas mais precisam dela.

Ele descreveu ainda dois níveis de aprendizado. O primeiro, que chamou de circuito simples, corrige o sintoma sem tocar na causa, o equivalente a um termostato que liga o aquecedor sempre que a temperatura cai, sem nunca perguntar por que está configurado naquela temperatura específica. O segundo, o circuito duplo, exige perguntar a própria premissa por trás da meta, não apenas o resultado. A maioria das organizações, e da maioria das conversas difíceis dentro delas, nunca sai do circuito simples, porque o circuito duplo exige exatamente o tipo de pergunta que a maioria das pessoas aprendeu, ainda na escola, a evitar.

Esse é justamente o retrato do empresário competente. Alguém que raramente fracassou o suficiente para desenvolver o hábito, que passou pela escola aprendendo a entregar resposta certa em vez de pergunta incômoda, e que agora lidera uma empresa inteira carregando esse condicionamento sem nunca ter escolhido conscientemente carregá-lo. A boa notícia é que existe gente que rompeu com esse padrão de forma deliberada, e a história de como isso aconteceu é mais concreta do que qualquer teoria.

Em 1985, a Intel estava sangrando dinheiro no próprio negócio de origem, memória de computador, goleada por concorrente japonês que produzia mais barato e mais rápido. Andy Grove, então presidente da empresa, e Gordon Moore, cofundador e presidente do conselho, passaram quase um ano inteiro discutindo o problema sem chegar a lugar nenhum, presos numa indecisão que já estava contaminando o ânimo de todo mundo ao redor. Num desses encontros, olhando pela janela do próprio escritório, Grove virou para Moore e fez uma pergunta que nenhum dos dois tinha coragem de fazer até ali. Se a gente fosse demitido agora, e o conselho trouxesse um novo presidente de fora, o que você acha que essa pessoa faria. Moore respondeu sem hesitar, ele tiraria a gente do negócio de memória. Grove então perguntou de volta, por que então você e eu não saímos por aquela porta, voltamos, e fazemos isso nós mesmos.

A pergunta parece simples, quase um truque mental. Mas foi ela que destravou uma decisão que a empresa vinha adiando havia meses, fechar fábrica inteira, demitir cerca de um terço do quadro de funcionários, e apostar tudo no que até então era um negócio secundário dentro da companhia, o microprocessador. A receita da Intel saltou de um bilhão e seiscentos milhões de dólares em 1984 para quase nove bilhões em 1993. Grove batizou esse tipo de pergunta de teste da porta giratória, imaginar a própria saída da empresa para conseguir enxergar, com a distância emocional de um estranho, a decisão que o apego ao próprio passado estava impedindo de ser vista com clareza.

Ray Dalio, fundador da Bridgewater, hoje o maior fundo de hedge do mundo, quase quebrou a própria empresa em 1982, depois de apostar publicamente numa previsão econômica catastrófica que simplesmente não se confirmou. Ele perdeu dinheiro, perdeu credibilidade, e precisou demitir praticamente toda a equipe que tinha construído até ali. Em vez de esconder o próprio erro, Dalio decidiu transformar aquele fracasso em método de trabalho permanente, resumido numa frase que se tornou o lema não oficial da empresa, dor mais reflexão gera progresso.

A partir daí, Dalio construiu deliberadamente uma cultura que ele chamou de transparência radical, onde qualquer funcionário, incluindo os mais júniores, tem liberdade formal para questionar decisão de superior em reunião gravada e revisada depois por todo mundo. Dalio afirma repetidamente que aprendeu, ao longo dos anos, a tratar a verdade desconfortável não como ameaça a ser evitada, mas como o ativo mais valioso que existe dentro de uma empresa, porque cada verdade dessas escondida é, segundo ele, um erro que vai custar mais caro depois do que custaria custar agora, sendo dito em voz alta. Vale registrar que esse sistema também recebeu crítica séria depois, inclusive um livro investigativo que descreveu episódios em que a transparência radical teria sido usada de forma mais dura e menos igualitária do que a própria Bridgewater promete publicamente. Isso não invalida o método, mas reforça um ponto importante, pergunta desconfortável exige, além de coragem para fazer, humildade genuína de quem está no topo para realmente ouvir a resposta sem usar o próprio poder para calar quem respondeu.

Jeff Bezos construiu, dentro da Amazon, um princípio que ele chamou de discordar e se comprometer, incentivando qualquer executivo a discordar abertamente de uma decisão em discussão, mesmo sabendo que, uma vez tomada, precisaria executá-la com o mesmo empenho de quem concordou desde o início. A lógica por trás disso é direta, silenciar a própria discordância por educação ou por medo custa mais caro para a empresa do que o desconforto passageiro de uma reunião tensa. Bezos também ficou conhecido por interromper apresentação com pergunta direta e incômoda sempre que sentia que um número ou uma afirmação estava sendo aceito sem verificação suficiente, tratando isso não como hostilidade, mas como parte do próprio trabalho de garantir que a empresa nunca se acostumasse a acreditar na própria versão mais confortável dos fatos.

Nenhum dos três nasceu confortável fazendo esse tipo de pergunta, e nenhum escapou da mesma condição biológica e cultural descrita antes. Grove descreveu, no próprio livro sobre o episódio da Intel, o quanto aquele período foi doloroso e arrastado antes da pergunta certa aparecer. Dalio construiu o próprio sistema depois de quase falir por evitar, durante anos, admitir publicamente que podia estar errado. Bezos precisou institucionalizar a discordância dentro da cultura da empresa justamente porque sabia que, sem estrutura formal para isso, as pessoas tendem a preferir o silêncio confortável à divergência arriscada, o mesmo circuito simples que Argyris descreveu, e a mesma fuga que a escola ensinou a todos eles antes de qualquer diploma de administração. Nos três casos, a pergunta desconfortável não nasceu de talento natural, nasceu de um momento de dor real que ensinou, na marra, exatamente aquilo que Sócrates pagou com a própria vida para demonstrar, que evitar a pergunta custa, no fim, muito mais caro do que fazer ela.