O leão é a parte fácil
No Brasil, todo empresário já ouviu e já repetiu a expressão que se tornou quase um juramento da classe, a de que é preciso matar um leão por dia. A frase carrega uma imagem heroica e muito sedutora. Ela sugere um combate diário contra uma força poderosa, um enfrentamento corpo a corpo em que o empresário prova sua coragem diante de um adversário à altura. E de fato, ao longo da jornada, os leões aparecem. Um concorrente gigante que entra no mercado, uma crise econômica que derruba o faturamento, uma dívida que vence antes da hora, um cliente grande que vai embora de uma só vez. São problemas brutos, imponentes, que rugem e não deixam dúvida sobre onde estão.
Depois de quase 20 anos empreendendo, cheguei a uma conclusão que contraria a sabedoria popular. O leão raramente é o que derruba uma empresa. O leão é visível, e tudo que é visível pode ser enfrentado com estratégia, força e mobilização. O que realmente corrói um negócio são os bichos pequenos, obscuros e sorrateiros, que vivem nas frestas, saem quando ninguém está olhando e se multiplicam em silêncio. Os ratos, as baratas e as cobras de cada dia.
A própria natureza oferece uma pista sobre isso. O animal que mais mata seres humanos no planeta não é o leão, o tubarão ou qualquer predador imponente. É o mosquito, responsável por centenas de milhares de mortes todos os anos por doenças como a malária. O perigo maior quase nunca tem o tamanho que a nossa imaginação espera.
Existe uma razão psicológica para o empresário gostar tanto da metáfora do leão. Enfrentar um leão confere identidade. Ele gera adrenalina, mobiliza a equipe, rende uma boa história para contar depois e confirma a imagem de herói que muitos fundadores alimentam sobre si mesmos. Matar um rato, por outro lado, não rende glória nenhuma. É um trabalho sujo, repetitivo, sem plateia e sem aplauso.
Por isso conheço empresários que, de forma inconsciente, preferem criar leões a lidar com ratos. Inventam uma expansão, uma nova frente de negócio ou uma guerra com o concorrente, porque o grande combate é mais confortável do que a disciplina silenciosa de limpar a própria casa. O resultado costuma ser previsível. Enquanto o empresário luta bravamente na frente de batalha, a empresa é devorada por dentro.
Em 1931, o engenheiro americano Herbert Heinrich estudou milhares de acidentes de trabalho e propôs uma relação que ficou conhecida como pirâmide de Heinrich. Para cada acidente grave, ele identificou cerca de 29 acidentes leves e aproximadamente 300 ocorrências sem nenhuma lesão. Os números exatos foram debatidos nas décadas seguintes, mas o princípio permaneceu como um dos fundamentos da gestão de segurança. O desastre visível é quase sempre o topo de uma montanha de pequenos sinais ignorados. O leão que aparece hoje costuma ter sido alimentado durante meses pelos ratos que ninguém quis caçar.
O rato é o problema que se multiplica. Ele raramente aparece sozinho, e quem vê um sabe que existem outros. No mundo dos negócios, os ratos são os pequenos vazamentos que se repetem todos os dias. A inadimplência que ninguém cobra com rigor, o retrabalho que virou rotina, o desconto concedido sem critério, o estoque que some aos poucos, a reunião que não termina em decisão, a despesa pequena que ninguém questiona porque parece insignificante. Isoladamente, nenhum desses problemas assusta. Somados, eles roem a margem como um rato rói a fiação de uma casa, em silêncio, até o dia em que tudo pega fogo.
Quem trabalha com controle de pragas sabe que ratos são animais desconfiados, que evitam objetos e iscas novas no ambiente, e que caçá-los um a um é uma guerra perdida. A estratégia eficaz é o saneamento. Retira-se a comida, fecham-se as entradas, limpa-se o ambiente que permite a sua proliferação. O rato revela, portanto, um problema de estrutura. Quando a empresa está infestada de pequenos vazamentos, o que falta geralmente são processos claros, indicadores acompanhados com regularidade e uma rotina de gestão que não dependa do humor do dono.
Os criminologistas James Wilson e George Kelling formularam em 1982 a teoria das janelas quebradas, segundo a qual pequenos sinais de desordem, quando tolerados, comunicam que ninguém está cuidando do lugar e convidam desordens maiores. Uma empresa que tolera os pequenos ratos ensina à equipe, sem dizer uma palavra, que o descuido é aceitável.
A barata é o problema que se esconde da luz. Ela vive nas frestas, aparece à noite e foge assim que alguém acende a lâmpada. Na empresa, as baratas são os comportamentos que só existem quando o líder não está presente. A fofoca nos corredores, a panelinha que sabota decisões, o funcionário que trabalha diferente quando ninguém confere, a informação que circula pelas costas, o desânimo que contamina a equipe em conversas que nunca chegam à mesa da diretoria.
A barata é também conhecida pela sua resistência quase lendária. Pesquisadores da Universidade Purdue publicaram em 2019 um estudo mostrando que a barata alemã consegue desenvolver resistência a vários tipos de inseticida ao mesmo tempo, o que torna inúteis as estratégias baseadas num único veneno. Essa é uma lição valiosa para quem lidera pessoas. Problemas de cultura não se resolvem com uma única intervenção, um treinamento isolado ou um discurso inspirador na reunião de segunda. Eles se adaptam, recuam e voltam.
A barata revela, portanto, um problema de cultura e de transparência. A estratégia contra ela é a luz constante. Conversas francas, informações abertas, rituais de alinhamento frequentes e líderes presentes no dia a dia, e não apenas nos momentos de crise. Onde a luz entra com regularidade, a barata perde o seu esconderijo.
A cobra é o problema que está mais perto do que você imagina. Ela é silenciosa, se camufla no ambiente e ataca quando você menos espera, muitas vezes no momento em que você está distraído ou confiante demais. O brasileiro tem uma expressão precisa para isso, criar cobra para ser picado. Na empresa, as cobras são as traições, os desvios de conduta, o funcionário de confiança que desvia recursos, o parceiro que negocia pelas suas costas, o contrato mal feito que guarda uma armadilha, a pessoa que você protegeu e que um dia leva clientes, informações e metade da equipe consigo.
A maioria das picadas acontece quando alguém pisa numa cobra sem vê-la ou tenta manuseá-la sem preparo. Não se vence uma cobra com força, e sim com atenção, prevenção e conhecimento. Por isso a cobra revela um problema de discernimento e de governança. A estratégia contra ela inclui escolher com muito critério quem entra no seu círculo próximo, formalizar acordos mesmo entre amigos, separar o patrimônio da empresa do patrimônio pessoal, criar mecanismos de controle que não dependam apenas da confiança e prestar atenção nos pequenos sinais de incoerência entre o que alguém diz e o que faz.
O Brasil tem uma história bonita sobre isso. No início do século 20, o cientista Vital Brazil desenvolveu no Instituto Butantan, fundado em 1901, os soros contra o veneno de serpentes brasileiras, produzidos a partir do próprio veneno. Existe uma sabedoria enorme nessa imagem. O empresário que já foi picado pode transformar a dor da traição em aprendizado e criar, a partir dela, as estruturas que vão proteger o negócio da próxima picada.
Cada um desses bichos exige uma estratégia diferente, porque cada um revela uma fragilidade diferente. O rato aponta para a falta de estrutura e de processo. A barata aponta para os problemas de cultura e de transparência. A cobra aponta para as falhas de discernimento e de governança. E o leão, quando aparece, costuma ser apenas a consequência visível de tudo aquilo que foi ignorado durante muito tempo.
Isso muda profundamente a forma de enxergar o papel de quem empreende. O empresário maduro deixa de se ver apenas como o guerreiro que enfrenta feras na linha de frente e passa a se ver também como o guardião da casa, aquele que inspeciona as frestas, mantém as luzes acesas e conhece cada canto do próprio território. É um trabalho menos glorioso, mais paciente e muito mais decisivo.
No ambiente que construí, vejo diariamente empresários que chegam acreditando que o problema deles é um leão, e que descobrem, ao conversar com outros que já passaram pelo mesmo caminho, que o leão era apenas o rugido final de uma infestação silenciosa. Às vezes é preciso o olhar de alguém de fora para enxergar o rato que corre atrás do armário. Matar um leão por dia continua sendo necessário, mas quem quer construir algo que dure precisa aprender, antes de tudo, a não alimentar os bichos pequenos.
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