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A empresa não vota

Depois da eleição, por que misturar política com gestão enfraquece o negócio, nos exemplos de Brian Armstrong, Sundar Pichai e Michael Jordan.

As urnas fecharam ontem e o país acordou hoje dividido em dois times, como acontece a cada quatro anos. Nas redes, nos grupos de família e, o que mais me preocupa, nos grupos de empresários, a conversa virou uma escolha binária, ou você está de um lado ou está do outro. Bem contra mal, certo contra errado, direita contra esquerda. Não existe uma terceira cadeira na mesa, e quem tenta puxar uma é tratado como covarde ou como cúmplice.

Confesso que tenho uma preguiça enorme dessa dicotomia. Em quase vinte anos empreendendo, nunca vi um boleto ser pago porque o fornecedor votou certo, nem um cliente renovar contrato porque concordava com a minha opinião sobre o governo. O que vi, repetidas vezes, foi empresa perder foco, energia e gente boa porque deixou a disputa de fora entrar pela porta da frente e sentar na sala de reunião.

Escuto com frequência empresários dizendo que não contratam pessoas de esquerda, e outros dizendo o mesmo com o sinal trocado. Acho as duas posições igualmente equivocadas, e pela mesma razão. Elas confundem convicção política com competência profissional, e escolhem gente pelo crachá ideológico em vez de escolher pelo que a pessoa entrega.

O mercado nunca perguntou em quem alguém votou antes de fechar negócio, e a história prova isso com fartura. Se a fé de alguém garantisse prosperidade nos negócios, a riqueza do mundo estaria concentrada em um único credo, e a realidade mostra exatamente o contrário. O Japão reconstruiu sua economia sob tradições xintoístas e budistas. A Índia formou alguns dos maiores conglomerados do planeta com fundadores hindus, muçulmanos, jainistas e parsis. Os países do Golfo ergueram cidades inteiras no deserto, e o Vale do Silício foi construído por ateus declarados, judeus, cristãos e gente que nunca pensou no assunto. Na lista dos mais ricos do mundo há praticantes de quase todas as religiões, de todas as etnias, e há também quem não tem religião alguma.

Com a política acontece a mesma coisa. Há empresários bem-sucedidos que se dizem conservadores, outros que se dizem progressistas, e uma multidão silenciosa que simplesmente não fala do assunto em público. O que os une passa longe da urna e mora numa combinação bem mais concreta. Entendem a dor de um cliente, constroem uma solução melhor que a do concorrente, cobram um preço que sustenta o negócio e montam uma equipe capaz de entregar isso todos os dias.

Isso não significa que política e religião não importam. Importam muito na vida de cada pessoa, moldam valores, decisões e a forma como cada um enxerga o mundo. Significa apenas que elas não são a variável que explica por que uma empresa cresce e outra quebra. Quem atribui o próprio sucesso à sua bandeira, ou o fracasso do outro à bandeira dele, está olhando para o lugar errado.

Não estou sozinho nessa convicção. Alguns dos nomes mais relevantes do mundo dos negócios chegaram à mesma conclusão, quase sempre depois de pagar caro por ter deixado a disputa entrar.

Brian Armstrong, fundador da Coinbase, viveu isso em setembro de 2020, no auge de uma eleição americana inflamada. Ele publicou um texto declarando que a empresa seria focada em sua missão e não tomaria posição sobre causas ou candidatos sem relação com o negócio. Debates políticos internos passaram a ser vistos como distração, e ele ofereceu um pacote de saída a quem não concordasse. Cerca de 5% da equipe aceitou, algo em torno de 60 pessoas de um time de 1.200. A empresa seguiu em frente e abriu capital no ano seguinte, segundo reportagens da Axios e da Fox Business.

Jason Fried e David Heinemeier Hansson, sócios da Basecamp, fizeram o mesmo em abril de 2021. Proibiram discussões sobre política e temas sociais nos canais internos da empresa, porque elas drenavam energia e desviavam a conversa para lugares ruins. Quem quisesse debater podia fazê-lo em canais pessoais, fora do ambiente de trabalho, e a empresa também deixou de se manifestar publicamente sobre temas políticos sem ligação direta com o negócio. O preço foi alto, cerca de um terço dos 57 funcionários aceitou a proposta de saída, segundo o The Register e o Technical.ly.

Sundar Pichai viveu uma versão mais longa do mesmo dilema no Google. Durante anos, a empresa foi símbolo de uma cultura corporativa em que ativismo interno era quase parte do produto. Em abril de 2024, depois de protestos dentro dos escritórios, Pichai enviou à empresa inteira um comunicado chamado Mission First, lembrando que a companhia é um negócio e não um palco para disputas políticas ou para que alguém use a empresa como plataforma pessoal. No dia da eleição americana daquele ano, voltou ao tema e pediu que os funcionários lembrassem que o produto precisa ser confiável para pessoas de todas as origens e crenças, segundo a Fortune e a NBC.

Bob Iger passou pelo mesmo depois que a Disney entrou de cabeça numa briga política com o governo da Flórida em 2022. Quando voltou ao comando, disse aos funcionários que queria acalmar as coisas, porque controvérsia distrai e prejudica a empresa. Em 2023, disse a investidores que a prioridade era baixar o volume da guerra cultural, que considerava ruim para os negócios, e repetiu que a missão da Disney é entreter e não servir a nenhuma agenda, segundo a Fox Business e a Business Insider.

Michael Jordan resolveu isso décadas antes de todo mundo. Em 1990, o maior atleta do planeta se recusou a apoiar publicamente um candidato ao Senado americano, e a frase que ele teria dito então virou lenda. Republicanos também compram tênis. Décadas depois, no documentário The Last Dance, ele confirmou que disse aquilo como brincadeira entre colegas de time, e explicou que sua energia estava toda no que fazia em quadra. A marca que leva seu nome atende clientes dos dois lados até hoje, segundo a Andscape e a Time.

Seria desonesto contar essas histórias sem contar o outro lado. Cada uma dessas decisões foi duramente criticada. Muita gente argumentou que proibir a política dentro da empresa também é uma escolha política, que alguém precisa decidir o que conta como tema da missão e o que não conta, e que a saída de tanta gente mostra o custo dessa linha. São críticas sérias e merecem ser levadas em conta. Ainda assim, o recado de todos esses líderes é o mesmo. Uma empresa que vira palanque perde a capacidade de servir a todos os seus clientes.

Lá fora, cada um é livre. Aqui dentro, o combinado é simples e vale para todo mundo. Quem trabalha comigo pode votar em quem quiser, frequentar o templo que quiser ou nenhum, defender as ideias que quiser na mesa do bar e nas redes sociais. Essa liberdade é dela, e eu não tenho o direito de tocar nela. O que eu exijo é outra coisa, bem mais objetiva. Que cada pessoa faça o melhor trabalho possível, que conviva em harmonia com a equipe e que entenda que, dentro do expediente, não existe partido nem religião, existe o cliente.

O limite que eu não aceito é a sabotagem. Não importa de que lado venha, quem tenta transformar o ambiente de trabalho em trincheira, quem trata o colega como inimigo por causa do voto, quem deixa a entrega cair porque está ocupado demais convencendo os outros, está atacando o negócio. E o negócio é o que paga o salário de todos, inclusive o de quem pensa diferente.

No ambiente que construí, convivem empresários que votaram em candidatos opostos ontem e que hoje vão se sentar lado a lado para discutir caixa, contratação e margem. Eles discordam sobre muita coisa e concordam sobre o essencial. Que empreender é difícil, que ninguém deveria decidir sozinho e que a dor do cliente não tem ideologia. É exatamente essa diversidade de repertório que torna a conversa útil. Uma sala onde todos pensam igual produz conforto, e conforto nunca resolveu problema de ninguém.

E aqui a coisa fica simples outra vez. Não sou obrigado a me posicionar politicamente, e não quero. Não por covardia nem por indiferença ao país, mas porque entendo qual é o meu papel enquanto empresário. Tenho clientes que confiaram no meu trabalho, assinaram um contrato e pagam uma conta todo mês. Eles votam em candidatos diferentes, rezam para deuses diferentes ou para nenhum, e todos esperam a mesma coisa de mim. Que eu resolva o problema que eles me trouxeram, com competência e no prazo combinado.

Por isso, em vez de perguntar se alguém da equipe é de direita ou de esquerda, prefiro perguntar se essa pessoa entende a dor do cliente melhor do que entendia ontem. Em vez de medir lealdade ideológica, prefiro medir entrega, cuidado e capacidade de trabalhar junto com quem pensa diferente. É nessas perguntas que mora o futuro de uma empresa.

A eleição acabou. Daqui a quatro anos haverá outra, e outra depois dela, e o país vai continuar discutindo com paixão os seus rumos, como deve ser numa democracia. Enquanto isso, o cliente continua lá, com a mesma dor de sempre, esperando que alguém se ocupe dela. Eu escolho me ocupar.