Eu sou vasto, eu contenho multidões
Existe uma frase de Walt Whitman que uso como régua quando percebo que estou me contradizendo: será que eu me contradigo, muito bem então, eu me contradigo, eu sou vasto, eu contenho multidões. Pode parecer fuga. É o oposto disso.
Em 1855, o poeta americano Walt Whitman escreveu uma das linhas mais citadas da literatura, será que eu me contradigo, muito bem então, eu me contradigo, eu sou vasto, eu contenho multidões. Ele estava, sem dizer o nome, recolocando uma ideia do próprio mentor intelectual, Ralph Waldo Emerson, que já tinha escrito, anos antes, que uma consistência tola é o fantasma que assombra mentes pequenas. A provocação dos dois, junta, é mais afiada do que parece à primeira leitura, contradição interna não é sinal de confusão, é sinal de amplitude. Só uma mente pequena precisa se resumir a uma única nota tocada o tempo inteiro.
A leitura mais óbvia dessa ideia aplicada a negócio já é conhecida, cada cliente, cada funcionário carrega um universo inteiro de experiência, perda, sonho e memória por trás do papel que ocupa dentro da empresa. Verdade, mas incompleta, e sozinha não muda comportamento de ninguém. A pergunta que realmente provoca tração não é lembrar que o outro contém multidão. É perguntar o que acontece quando o próprio empresário decide não conter mais nenhuma.
A psicóloga Patricia Linville, então em Yale, descreveu em 1985 e comprovou em estudo prospectivo de 1987 o que chamou de complexidade do eu, a ideia de que cada pessoa organiza a própria identidade em torno de um número maior ou menor de aspectos distintos, papel profissional, relação familiar, interesse intelectual, passado, projeto de futuro. Quem tem complexidade alta mantém esses aspectos relativamente separados na própria estrutura cognitiva, de modo que uma derrota num deles não contamina automaticamente todos os outros. Quem tem complexidade baixa organiza a própria identidade em torno de um único aspecto central, geralmente o profissional, de modo que qualquer abalo ali abala tudo de uma vez, porque não existe outro lugar para se apoiar enquanto aquele aspecto vacila. O achado mais revelador de Linville foi que a complexidade alta do eu não é correlacionada com ego inflado ou com autoestima artificialmente elevada. É, ao contrário, correlacionada com maior estabilidade emocional real, especialmente diante de evento negativo. A pessoa que contém mais do que um único papel é, por definição, mais resistente à perda de qualquer papel específico.
Existe um custo real, raramente nomeado, que vem de deixar de conter multidão ao longo dos anos. Não é sentimentalismo, é perda funcional. O empresário que lentamente eliminou da própria vida tudo que não serve diretamente ao negócio perde acesso ao repertório de onde vinham, às vezes, as decisões mais originais. Criatividade não nasce de especialização profunda dentro de uma única área, nasce de combinação inesperada entre coisas diferentes, e essas coisas diferentes só existem dentro da própria cabeça se forem alimentadas ao longo do tempo. Quando o empresário para de conter outras versões de si mesmo, o negócio eventualmente sente. Não numa crise aguda, mas na lenta perda da capacidade de enxergar o que ainda não foi tentado, de propor o que ainda não foi proposto, de reconhecer oportunidade que está escondida dentro de um contexto que a pessoa especializada demais simplesmente não tem mais dentro dela para acessar.
Vale, na prática, ser deliberado sobre isso. Não como exercício de autoajuda, mas como escolha estratégica com base empírica. Manter, de propósito, espaço para versões suas que não servem diretamente ao próximo trimestre. Ler o que não tem relação óbvia com o próprio setor. Passar tempo com gente de área diferente, não para fazer networking, mas para manter o repertório que nenhum especialista de mercado vai trazer para você. Walt Whitman não estava defendendo incoerência. Estava defendendo amplitude, a recusa de se deixar reduzir a uma única nota, mesmo quando a pressão para isso é constante, porque amplitude é proteção, é criatividade, é resiliência, e é, de forma concreta e mensurável, o que separa quem se recupera rápido de adversidade de quem desmorona de uma vez quando aquela única nota finalmente sai do tom.
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