Só constrói quem respeita quem constrói
No Coliseu, o sangue era sempre do mesmo lado da areia. Quem entrava armado sabia que podia não sair vivo, carregava cicatriz de combate anterior, calculava risco real a cada golpe. Nas arquibancadas, dezenas de milhares de pessoas que nunca tinham empunhado espada alguma decidiam, com um gesto simples da mão, se aquele homem coberto de poeira e sangue merecia continuar respirando. A plateia nunca correu risco nenhum. Mas era a plateia que julgava, e julgava com uma convicção emocionada, como se o próprio sangue derramado fosse dela.
Essa distância entre quem sangra na areia e quem gesticula da arquibancada nunca desapareceu, só trocou de roupa. Hoje é empresário que nunca fechou folha de pagamento opinando sobre quem fechou, é quem nunca assinou uma rescisão decidindo se o outro mereceu quebrar, é gente que nunca sentiu o peso de uma dívida com o próprio nome atrelado a ela, comentando com a mesma convicção emocionada de quem, séculos atrás, gesticulava da arquibancada sem nunca ter entrado na arena.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, tratava a franqueza como virtude, mas fazia questão de separar dois tipos de gente que dizem verdade dura para o outro. Existe quem confronta olho no olho, aceitando o desconforto de sustentar a própria opinião na frente de quem ela atinge, e existe quem prefere a maledicência, a fofoca, a crítica sussurrada pelas costas, porque não tem coragem de sustentar publicamente o que dispara em privado. Para Aristóteles, a segunda categoria não era nem sequer honestidade disfarçada. Era covardia com sotaque de opinião. Empresário que já construiu algo grande, quando discorda de outro, discorda na cara, porque sabe o preço de estar exposto e nunca faria com ninguém o que não aceitaria sofrer.
Quem nunca entrou na arena tende a confundir sorte, coragem e fracasso com a mesma superficialidade de quem assiste um esporte que nunca praticou. Não enxerga a decisão difícil tomada às três da manhã, não sente o peso específico de uma equipe inteira dependendo de uma escolha, não sabe que praticamente todo negócio relevante já esteve, em algum momento da própria história, a um erro de distância da falência. Por isso o empresário que já sangrou na própria areia reage diferente diante da crise alheia. Não zomba. Estende a mão quando pode, e guarda silêncio respeitoso quando não tem o que oferecer, porque reconhece no CNPJ do outro o mesmo CPF ferido que já viu no espelho em alguma noite ruim própria.
Existe uma solidariedade que só nasce entre quem correu risco parecido, documentada até fora do mundo dos negócios, em soldados que dividiram a mesma trincheira e carregam, para o resto da vida, uma lealdade que ninguém de fora consegue replicar por mais que tente entender de longe. Quem já esteve na areia reconhece, no rosto de outro combatente, algo que a plateia inteira, somada, nunca vai conseguir enxergar.
Crítica que vale alguma coisa vem de quem já pagou o preço de errar tentando construir. O resto é gesto de arquibancada, feito por quem nunca precisou aprender o que custa entrar na areia, e continua exatamente onde sempre esteve, sentado, confortável, decidindo o destino alheio com o único risco que corre, o de errar a mão no gesto e nem perceber.
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