A famosa sorte da noite pro dia
O olho humano não foi desenhado para perceber processo. Foi desenhado para perceber mudança repentina, porque durante a maior parte da história evolutiva da espécie, o que se movia de repente era exatamente o que podia matar ou alimentar. Esse mesmo mecanismo de sobrevivência, útil para escapar de um predador há dezenas de milhares de anos, hoje distorce silenciosamente a forma como qualquer pessoa enxerga a trajetória de outra. Ninguém viu os três primeiros anos sem faturamento relevante, as noites refazendo planilha, os clientes que disseram não antes do primeiro que disse sim, as sociedades que quebraram antes da que deu certo. O olho só registra o instante em que a curva finalmente ficou visível de longe, e batiza esse instante de sorte da noite para o dia, como se o resto do caminho simplesmente não tivesse existido só porque ninguém estava observando enquanto ele acontecia.
Essa distorção de percepção seria só curiosidade neurológica se não viesse acompanhada de uma conveniência psicológica enorme. Esopo já tinha mapeado essa conveniência há mais de dois mil anos, na fábula da raposa que não alcança as uvas no alto da parreira e decide, ali mesmo, que as uvas deviam estar verdes e sem valor. A raposa não mudou a realidade das uvas. Mudou a própria narrativa para não precisar sentir o peso de ter tentado e não conseguido. Chamar o sucesso alheio de sorte cumpre exatamente essa função, ele dispensa quem observa de examinar a própria distância até aquele resultado.
Nietzsche notou algo parecido sobre a forma como se fala de gênio e talento. Ele argumentava que insistir em tratar uma grande obra como dom misterioso, quase mágico, serve principalmente para dispensar quem admira da obrigação incômoda de reconhecer o tanto de trabalho invisível, repetitivo e nada glamouroso que sustentou aquele resultado por trás das cortinas. Chamar de sorte funciona pela mesma lógica. É mais confortável aceitar que o resultado caiu do céu do que admitir que exigiria anos do mesmo tipo de sacrifício que ainda não se está disposto a fazer.
O custo real dessa história não é moral, é prático. Toda energia gasta explicando por que o sucesso de alguém foi golpe de sorte é energia que deixou de ir para entender o que essa pessoa efetivamente fez diferente, o que testou antes de acertar, o que sacrificou fora do horário em que ninguém do círculo social estava olhando. A pergunta que separa quem cresce de quem só observa de fora nunca foi sofisticada. Diante do resultado de outra pessoa, existe sempre a opção de perguntar o que exatamente ela fez que ainda não foi feito, ou a opção de arquivar o caso inteiro sob a etiqueta mais confortável disponível. A primeira pergunta exige revisar a própria rotina. A segunda permite continuar exatamente como se está, e é por isso que continua sendo, de longe, a mais popular das duas.
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