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Por que a simplicidade é o mais alto grau do luxo?

É simples ser feliz. Pena que muitos não sabem ser simples.

É simples ser feliz. Pena que muitos não sabem ser simples.

Nas escolas e faculdades, deveríamos aprender sobre o fato de que simplificar exige mais domínio do que complicar, pois qualquer principiante consegue adicionar camada sobre camada a um problema. Só quem realmente entende a fundo consegue remover tudo que é dispensável e deixar exposto apenas o essencial, sem que nada importante se perca no processo. Hoje, numa época em que qualquer pessoa pode comprar praticamente qualquer objeto de status com um cartão e alguma paciência, essa mesma ideia migrou de sofisticação para luxo. Luxo deixou de ser o que se ostenta. Virou o que se dispensa. Ser feliz continua simples. Ser simples, numa era desenhada inteira para vender complexidade como sucesso, é que virou artigo raro.

A bíblia narrou essa ideia muito antes de qualquer discurso motivacional moderno se apropriar dela. Jó era um homem próspero, com terra, gado, família grande e reputação impecável, quando perde absolutamente tudo em sequência rápida, patrimônio, filhos, saúde, e finalmente até o benefício da dúvida dos próprios amigos, que passam a interpretar a desgraça como prova de pecado oculto. O núcleo da história nunca foi a perda em si, foi o que sobra depois dela. Jó descobre, devastado, que a própria identidade não estava de fato ancorada no gado nem nas propriedades que perdeu, porque, mesmo depois de perder tudo isso, ele continuava sendo reconhecivelmente ele mesmo, ainda capaz de questionar, de sofrer com integridade, de recusar respostas fáceis demais para uma dor real.

Os estoicos, numa tradição paralela, chegaram à mesma conclusão por caminho mais racional que revelado. Epicteto insistia que a liberdade real não vem de possuir mais coisas, vem de depender de menos coisas para estar bem, porque tudo que está fora do próprio controle, incluindo posse material, reputação e até saúde, pode ser tirado a qualquer momento por circunstância que ninguém escolhe. Diogenes, o filósofo cínico que vivia com praticamente nada, ilustrou essa ideia de um jeito quase teatral quando Alexandre, o homem mais poderoso do mundo conhecido na época, se ofereceu para realizar qualquer pedido seu, e Diogenes respondeu apenas pedindo que ele saísse da frente do sol. Um homem que não depende de nada não tem o que um imperador possa lhe negociar.

A ciência comportamental mediu, décadas depois, uma versão mais discreta desse mesmo fenômeno. Daniel Kahneman e o economista Angus Deaton publicaram um estudo mostrando que o bem-estar emocional relatado por pessoas cresce junto com a renda até certo patamar, e depois desse ponto, aumentos adicionais de renda praticamente deixam de mover o ponteiro da felicidade cotidiana relatada. O dinheiro resolve, com bastante eficiência, os problemas que o dinheiro de fato resolve, mas depois de certo limite ele para de comprar o que realmente falta, porque o que falta, a partir dali, raramente é material.

Existe uma diferença de maturidade nítida entre quem ainda associa liberdade a acumular e quem já entendeu que liberdade cresce, na prática, na direção contrária. Na juventude, a métrica costuma ser quanto se possui. Com o tempo, para quem realmente amadurece, a métrica vira de quantas coisas ainda se depende para continuar de pé. Menos dependência não significa menos ambição nem menos construção. Significa que a construção deixa de ser sustentação emocional disfarçada de projeto e passa a ser, finalmente, só projeto, leve o suficiente para sobreviver até a perda inevitável de alguma parte dele, porque perda, mais cedo ou mais tarde, sempre chega, com ou sem aviso, para qualquer pessoa que já viveu tempo suficiente para acumular alguma coisa que temesse perder. É esse o luxo real que ninguém consegue comprar pronto numa vitrine, a capacidade de perder e continuar inteiro.