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Não existe negócio fraco com gente forte

A força de um negócio não é uma variável independente. É reflexo direto da qualidade das pessoas que o conduzem e do horizonte de tempo com que elas pensam.
Não existe negócio fraco com gente forte.
Não existe negócio forte com gente fraca.
Não existe negócios bons com pessoas ruins, como também não existe negócios ruins com pessoas boas.
E não tente fazer negócios de longo prazo com pessoas de curto prazo.

Essas quatro frases parecem, à primeira leitura, uma variação sobre um tema conhecido: a ideia de que "gente é tudo" nos negócios. Mas há uma diferença entre repetir um lugar-comum e sustentar uma tese causal. A tese aqui não é que pessoas boas ajudam os negócios. A tese é mais forte e mais incômoda: a qualidade do negócio é, em grande medida, uma função direta da qualidade das pessoas que o operam. Um negócio não tem uma "força" própria, separada de quem o conduz, que possa ser medida isoladamente. O que chamamos de força ou fraqueza de um negócio é, quase sempre, um retrato da força ou fraqueza das pessoas que tomam decisões dentro dele, e do horizonte de tempo com que essas pessoas pensam.

Pessoas não são um insumo do negócio. São o negócio.

A linguagem corporativa tradicional trata pessoas como um dos recursos de uma empresa, ao lado de capital, tecnologia e processos. Essa forma de pensar é confortável porque permite separar o diagnóstico do negócio do diagnóstico das pessoas. Quando algo vai mal, é possível culpar o mercado, a estratégia ou o momento macroeconômico, preservando a ideia de que as pessoas envolvidas eram, em princípio, competentes. Warren Buffett resumiu de forma direta por que essa separação costuma ser uma ilusão: quando uma gestão com reputação de brilhante assume um negócio com reputação de má economia, é a reputação do negócio que permanece intacta, não a da gestão. A frase é engraçada porque inverte a expectativa, imaginamos que pessoas talentosas resgatam negócios ruins, mas ela descreve algo real e recorrente: negócios estruturalmente difíceis corroem até gestores excepcionais, enquanto negócios estruturalmente favoráveis escondem, por anos, a mediocridade de quem os administra.

Essa observação parece contradizer a tese de que gente forte não convive com negócio fraco. Mas o que Buffett descreve não é uma exceção à tese, é uma confirmação dela sob um recorte diferente. Um negócio estruturalmente ruim, comandado por pessoas fracas, produz exatamente o resultado que a primeira frase prevê: fracasso. O caso interessante, e mais raro, é quando pessoas verdadeiramente fortes assumem um negócio estruturalmente fraco e o transformam a ponto de ele deixar de ser fraco. Nesse caso, a tese ainda se sustenta, porque o negócio deixou de ser fraco justamente pela ação das pessoas. A força ou a fraqueza do negócio nunca é um dado fixo. É uma consequência.

Gente forte transformando um negócio péssimo

Poucos setores ilustram melhor essa dinâmica do que o da siderurgia americana na segunda metade do século XX, uma indústria de commodity, intensiva em capital, sindicalizada, cíclica e amplamente considerada, pelos próprios executivos que nela atuavam, um negócio ruim por definição. Foi exatamente nesse ambiente que Ken Iverson assumiu, em 1965, a presidência de uma divisão quase falida de uma companhia então chamada Nuclear Corporation of America. Iverson não herdou vantagem competitiva alguma. Herdou uma unidade deficitária num setor em que ninguém apostava.

O que ele construiu ao longo das três décadas seguintes, a Nucor Corporation, desafiou todas as premissas do setor. Iverson eliminou camadas hierárquicas, distribuiu poder de decisão para o chão de fábrica, vinculou a remuneração de cada trabalhador diretamente à produtividade da própria equipe e recusou-se a demitir durante as recessões que quebraram concorrentes inteiros. O resultado não foi apenas sobrevivência: a Nucor pagava aos seus operários os melhores salários do setor e, ainda assim, operava com o menor custo de produção por tonelada de aço da indústria americana, tornando-se eventualmente a maior siderúrgica dos Estados Unidos. Não havia tecnologia secreta nem vantagem regulatória. Havia um conjunto de pessoas, começando pelo próprio Iverson, cuja qualidade de decisão e disciplina de execução transformou um negócio amplamente considerado fraco em um dos exemplos mais estudados de excelência operacional da história empresarial americana. O negócio não era bom quando Iverson chegou. Ficou bom porque as pessoas certas o tornaram bom.

Gente fraca destruindo um negócio excepcional

O espelho dessa história é a Eastman Kodak. Poucas empresas do século XX chegaram a ocupar uma posição tão dominante: a Kodak não apenas controlava a maior parte do mercado global de filme fotográfico, como também possuía as patentes mais avançadas em imagem digital e um dos corpos técnicos mais respeitados do setor. Foi um engenheiro da própria Kodak, Steve Sasson, quem construiu o primeiro protótipo de câmera digital da história, em 1975, quase uma década antes de qualquer concorrente sequer se aproximar da tecnologia. Em termos de ativos, tecnologia e posição de mercado, a Kodak era, objetivamente, um negócio forte.

O que faltou não foi capacidade técnica, mas decisão. A liderança da Kodak temia que a fotografia digital canibalizasse a receita do filme, então tratou a invenção como uma curiosidade interna a ser contida em vez de uma oportunidade a ser explorada, protegendo os resultados trimestrais do negócio de filme em vez de investir na transição que a própria empresa havia tornado tecnicamente possível. Décadas de decisões orientadas para preservar o lucro do próximo trimestre, em vez de construir a posição da empresa para a década seguinte, transformaram a maior vantagem tecnológica do setor em uma nota de rodapé histórica. A Kodak entrou com pedido de recuperação judicial em 2012. O negócio não era fraco por natureza. Ficou fraco porque as pessoas no comando pensavam em prazos curtos demais para administrar um ativo cujo valor só se realizaria no longo prazo.

Nucor e Kodak são, em essência, o mesmo experimento rodado em direções opostas. Em um caso, pessoas fortes pegaram um negócio estruturalmente fraco e o tornaram excepcional. No outro, pessoas de horizonte curto pegaram um negócio estruturalmente excepcional e o destruíram. A variável que explica os dois desfechos não é a indústria, o capital disponível ou a tecnologia. É a qualidade humana no comando e, especificamente no caso da Kodak, a qualidade do horizonte de tempo dessa liderança.

A quarta frase é a mais importante

As três primeiras frases da tese descrevem uma correlação entre qualidade das pessoas e qualidade do negócio. A quarta frase, não tente fazer negócios de longo prazo com pessoas de curto prazo, introduz uma variável que as três primeiras não mencionam explicitamente, mas que estava presente nos dois casos anteriores: o horizonte temporal de quem decide.

Nassim Taleb, em sua obra sobre incentivos e responsabilidade, argumenta que a durabilidade de qualquer sistema depende de quem tem "pele em jogo", de quem arca com as consequências de longo prazo das próprias decisões. Pessoas de curto prazo não são necessariamente pessoas más ou incompetentes. Muitas vezes são tecnicamente excelentes. O problema é estrutural: elas otimizam para o resultado que podem colher antes de sair, e deixam para quem ficar o custo do que não foi construído para durar. Um sócio de curto prazo, um executivo de curto prazo ou um fornecedor de curto prazo pode entregar resultados impecáveis no trimestre em que a relação é avaliada e, ainda assim, ser exatamente a pessoa errada para qualquer compromisso que dependa de anos de consistência.

Isso explica por que negócios de longo prazo, aqueles que dependem de reputação acumulada, de confiança que se constrói lentamente, de investimentos cujo retorno só aparece depois de anos, são incompatíveis com pessoas de curto prazo, mesmo quando essas pessoas são individualmente capazes. Não é uma questão de caráter isolado. É uma questão de incompatibilidade de relógios. Uma pessoa que pensa em trimestres não consegue, estruturalmente, ser boa sócia de um negócio que só existe porque alguém pensou em décadas. A Kodak é, de novo, o exemplo perfeito: a companhia foi destruída não por pessoas desonestas, mas por uma sucessão de decisões tomadas por gente competente demais para errar por acidente e de prazo curto demais para acertar por princípio.

O teste prático da tese

Se a força de um negócio é, na prática, um reflexo da força das pessoas que o conduzem, e se essa força depende tanto da qualidade da decisão quanto do horizonte temporal de quem decide, a consequência prática é direta: antes de avaliar a saúde de um negócio, deveríamos avaliar a saúde e o horizonte de tempo das pessoas que o comandam. Jim Collins, ao estudar as empresas que sustentaram desempenho excepcional por décadas, chegou a uma constatação semelhante: os líderes mais eficazes começam decidindo quem deve estar no barco antes mesmo de decidir para onde o barco vai. A pergunta "quem" precede estruturalmente a pergunta "o quê". Um "o quê" brilhante nas mãos erradas se deteriora, e um "o quê" modesto nas mãos certas se transforma.

A tese completa, portanto, não é apenas que negócios refletem pessoas. É que negócios refletem pessoas em dois eixos simultâneos: a qualidade da decisão e a duração do compromisso com as consequências dessa decisão. Um negócio fraco pode se tornar forte nas mãos de gente forte que pensa em décadas. Um negócio forte pode se tornar fraco nas mãos de gente competente que pensa em trimestres. Entre essas duas variáveis, quem decide e por quanto tempo essa pessoa pretende arcar com o que decidiu, está praticamente toda a explicação de por que alguns negócios duram e outros, apesar de todas as vantagens iniciais, não duram.